Intolerância e discurso de ódio nas redes sociais

Enviada em 09/06/2020

Não é de hoje que se vive uma sociedade intolerante, mas desde a chegada da internet isso se amplificou, chegando a proporções absurdas. Ainda não é possível dizer se as pessoas estão mais intolerantes por causa das redes sociais ou se apenas ganharam espaço para disseminarem seus discursos de ódio. De qualquer forma, a verdade é que hoje temos à disposição um ringue virtual, onde as pessoas trocam tapas, socos e chutes fantasiados de um suposto direito de opinião, que entristece, adoece e, por vezes, até mata.

Um caso fatal da intolerância nas redes aconteceu em julho do ano passado. A blogueira carioca Alinne Araújo se jogou do nono andar do prédio onde morava, na zona oeste do Rio de Janeiro. A jovem já havia mencionado sobre o seu quadro de depressão nas redes sociais, quando contou que o noivo rompeu o relacionamento um dia antes do casamento. Com a festa toda paga e programada, Alinne anunciou que casaria com ela mesma, para celebrar sua nova vida. Infelizmente, os internautas não reagiram bem quando a influencer compartilhou a informação, assim como quando divulgou as fotos e vídeos do seu casamento solo. Alinne foi severamente julgada através de comentários maldosos e ofensivos, que a atacavam diretamente. A jovem chegou a ser acusada de inventar a história do noivo para chamar a atenção nas redes. E, por fim, na segunda-feira após a festa, Alinne tirou a própria vida.

Ao que parece, as redes provocam uma sensação de segurança para dizer o que não se deve, defender o indefensável, vomitar o que de pior existe dentro de si, sem grandes consequências para o ato. Aliás, em muitos casos, os intolerantes até se sentem recompensados, ao encontrar nas redes pessoas que concordam e reverberam esse tipo de discurso. É o efeito negativo do curtir e do compartilhar.

Fica claro que o mundo virtual se transformou em mais um meio disponível e muito acessível para que os intolerantes se manifestem, às vezes até mesmo incentivando a expressão desses preconceitos. Isso porque, se a internet não criou a intolerância, ela a reproduz, aumenta seu alcance e ajuda a naturalizar e a conservar discursos de ódio.

Contudo, o que pode ser feito para diminuir tal problema é criar mecanismos que obriguem os provedores de aplicação e conteúdo a darem maior transparência às suas políticas e termos de uso, criar efetivamente instrumentos de intermediação entre esses provedores e seus usuários – a maioria deles não possui sequer um departamento de atendimento ao cliente no Brasil –, tornar mais transparentes os critérios para patrocínio de postagens, divulgação de publicidade e de funcionamento de seus algoritmos, que estimulam a bolha do preconceito e do ódio.