Intolerância e discurso de ódio nas redes sociais
Enviada em 09/10/2020
Atuando em busca da liberdade de expressão, grupos revolucionários, organizados pelas redes sociais, derrubaram governos ditatoriais no Norte da África e no Oriente Médio, por intermédio de manifestações e protestos. Assim, o que ficou conhecido como “Primavera Árabe” mostra a amplitude que a liberdade de expressão ganha através das comunidades online. Contudo, essa liberdade, contemporaneamente, vem sendo usada como pretexto para a geração de discursos de ódios na web, alimentados pela intolerância. Dentre tantos fatores relevantes, destacam-se: a falta de empatia e a validação do ódio.
Em uma primeira perspectiva, é irrefutável que as declarações de ódio apresentam íntima relação com a falta de empatia, uma vez que usuários deixam de se importar com o próximo no instante em que dão voz aos seus preconceitos. Nesse sentido, segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, em sua obra “Modernidade Líquida”, a maioria dos problemas sociais pós-modernos estão ligados ao individualismo. Depreende-se que, o excesso de individualismo resulta em uma falta de empatia. Consequentemente, levando a ocorrência de situações como a da Jornalista Maju Coutinho, que se tornou uma vítima frequente de comentários racistas nas redes sociais, feitos, em sua totalidade, por pessoas extremamente individualistas.
Em uma segunda análise, o psicanalista Contardo Calligari já dizia que nas redes sociais, é possível expressar o seu ódio, dar a ele uma dimensão pública, receber aplausos de seus amigos e se sentir, de alguma forma, validado. Seguindo essa linha de pensamento, a rede possibilita com que o usuário viva em uma “bolha social” — usando o controle de dados para que o mesmo se veja cercado por pessoas que compartilham da mesma opinião — passando uma falsa sensação de que todos validam seus julgamentos, mesmo que sejam agressivos ou preconceituosos. Nesse contexto, a validação do ódio — que ganha amplitude nas comunidades online — é algo tenebroso, podendo até mesmo influenciar indivíduos a infligirem a constituição, principalmente, por meio da prática de discursos ofensivos.
Verifica-se, então, a necessidade de combater a intolerância e o discurso de ódio na web. Para isso, faz-se imprescindível que o Ministério da Educação e da Cultura, por intermédio de minicursos, instrua os educadores — especialmente os docentes em filosofia, haja vista o conhecimento reflexivo inerente a tal curso — a elucidar em suas aulas a importância de distinguir liberdade de expressão de discurso de ódio, de modo a estimular os alunos a denunciarem a intolerância presente nas redes sociais. Assim sendo, tornar-se-á possível a construção de uma comunidade online ausentada da validação do ódio e permeada pela empatia.