Intolerância e discurso de ódio nas redes sociais
Enviada em 04/01/2021
Na mitologia grega, Narciso ficou tão obcecado com sua própria imagem, refletida nas águas de um riacho, que esqueceu de se alimentar. Esse cenário serve de metáfora para compreender a intolerância e o discurso de ódio nas redes sociais, já que, em ambos, inexiste a capacidade de dialogar com o diferente. Nesse sentido, é notório que a origem desse problema contemporâneo se encontra no fenômeno das bolhas tecnológicas, dado que elas mantêm seus participantes ignorantes da própria condição. Assim, entre os fatores que produzem esse quadro, pode-se destacar: a manipulação do usuário pelas empresas e a falta de uma educação libertadora.
Nesse contexto, é fundamental perceber que as redes sociais que influenciam as ações de seus participantes, aliado à formação de comunidades virtuais questionáveis, podem encorajar a falta de civilidade na internet. Isso ocorre porque, uma vez que o capitalismo visa o lucro acima do bem-estar dos indivíduos, essas plataformas ignoram reprimir grupos que fomentam crimes (como racismo, misoginia e homofobia), com o objetivo de maximizar a venda de propagandas de anunciantes de produtos e serviços, à despeito da gravidade do discurso maléfico gerado. Por consequência, os usuários – estimulados pelos algoritmos – desprezam a harmonia social para conquistar engajamento, fama e dopamina, ponto importante denunciado no documentário da Netflix “O Dilema das Redes”.
Ademais, é importante reconhecer que a ausência de uma educação enriquecedora, somada à existência de currais radicais, fechados em si mesmos, incita a glorificação de patologias mentais nas redes. Isso acontece porque tais clãs cibernéticos não se abrem para a possibilidade de descobrir que estão equivocados, no ato de ponderar sobre o contraditório, uma vez que, não raro, tratam os que discordam de suas opiniões como inimigos. Além disso, o efeito manada do eco das mesmas vozes contribui para confirmar ao criminoso que sua situação não é perigosa. Assim, esse panorama aproxima-se do Mito da Caverna de Platão, porque, semelhante à situação dos cativos da alegoria, boa parte dos internautas, que necessitam de cuidados psicológicos e punição adequada, não compreendem a própria situação e rejeitam uma educação que promova a liberdade.
Portanto, é evidente que as bolhas das mídias sociais, derivadas de empresas que manipulam os usuários e da carência de uma formação intelectual digna, incentivam a romantização da discriminação. Diante disso, cabe ao Governo Federal implementar um Plano Nacional do Bem-Estar Digital, por meio da formulação de um decreto federativo, com a finalidade de cuidar da saúde do cidadão. Assim, esse Plano deve criar uma agência reguladora para combater os excessos das organizações digitais, a fim de coibir a glamorização de psicopatias e fins trágicos, antisossiais, como o de Narciso.