Intolerância e discurso de ódio nas redes sociais
Enviada em 13/09/2021
Em “Ensaio sobre a Cegueira”, o escritor português José Saramago desenvolve uma narrativa trágica centrada na crítica ao estado de irreflexão da sociedade pós-moderna, por intermédio de uma epifânica cegueira que acomete os indivíduos do meio social. Ao considerar tal sintoma para fundamentar a discussão sobre a intolerância e o discurso de ódio nas redes sociais, vê-se que o corpo social hodierno desenvolveu uma cegueira moral ao não refletir sobre a necessidade de um comportamento moral no ambiente digital. Nesse sentido, cabe analisar de que forma o discurso de impunidade é um entrave, bem como discorrer sobre a precariedade das punições para tais ações no país.
A priori, é preciso reconhecer que, no contexto virtual, há a possibilidade de criação de perfis falsos, o que contribui para o discurso de ódio, devido a sensação de anonimato. Há, evidentemente, a partir disso, a ampliação de atitudes preconceituosas como postagens racistas que ferem os direitos humanos e debates políticos intolerantes. Nessa perspectiva, atesta-se a percepção de Saramago, na medida em que a sociedade não refletiu sobre a necessidade de desconstruir esse discurso de impunidade para garantir um comportamento moral e ético na redes sociais. Dessa forma, vê-se a persistência de um ambiente virtual marcado por violências e pela falta de harmonia social.
Outrossim, é preciso reconhecer que, apesar da existência de mecanismos legais como o Marco Civil da Internet, a fiscalização e punição dos discursos intolerantes nas redes sociais não são eficientes. Sob essa ótica, ganha voz a percepção do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, na obra “O mal estar da pós-modernidade”, ao discorrer sobre as chamadas “instituições zumbis”, organismos sociais que, embora importantes, perderam, com o tempo, a forma. À luz dessa ideia, torna-se notório que o Estado tornou-se uma instituição zumbi, visto que não investiu em meios mais sólidos de punição desses indivíduos que praticam o discurso de ódio, como a criação de algoritmos para melhor detecção desses infratores. Logo, muitos indivíduos seguem como vítimas de preconceito nas redes sociais.
Assim, diante dos argumentos supracitados, é preciso concentrar esforços em solucionar esse impasse. Inicialmente, cabe ao Ministério da Educação, órgão responsável pela formação dos cidadãos, a tarefa de desconstruir o discurso de impunidade nas próximas gerações, a partir de palestras, seminários e rodas de conversa, visando garantir um ambiente virtual ético e harmonioso. De modo complementar, o Governo Federal deve investir em punições desses discursos, por meio de mecanismos que obriguem os provedores de aplicação e conteúdo a investirem em algoritmos de rastreamento de postagens intolerantes, com vistas a minimizar essas ações. Espera-se que, com atitudes desse tipo, finde-se a cegueira da razão no país.