Lei da Palmada: Avanço social ou intervenção na criação?
Enviada em 22/07/2021
O mito da caverna, de Platão, descreve a situação de pessoas que se recusavam a observar a verdade em virtude do medo de sair de sua zona de conforto. Fora da alusão, a realidade brasileira caracteriza-se com a mesma problemática no que diz respeito ao uso de agressões na criação domiciliar. Nesse contexto, percebe-se a configuração de um grave problema de contornos específicos, em virtude da formação familiar e da lenta mudança na mentalidade social.
Convém ressaltar, a princípio, que a formação familiar é um fator determinante para a persistência do problema. Nesse sentido, de acordo com o sociólogo Talcott Parsons, a família é uma máquina que produz personalidades humanas. Por essa ótica, a problemática do uso de violência na criação apresenta-se como um pensamento passado de geração em geração, o que dificulta seu extermínio por forças externas, já que o problema encontra-se dentro das casas das pessoas brasileiras e estende-se por uma longa linha do tempo.
Outro ponto relevante, nessa temática, é a lenta mudança na mentalidade do corpo social. Dessa maneira, conforme o filósofo Émile Durkheim, o fato social é a maneira coletiva de pensar. Sob essa lógica, é possível perceber que a questão do uso da agressão na criação dos filhos é fortemente influenciada pelo pensamento coletivo, uma vez que, se as pessoas crescem inseridas em um contexto social opressor, a tendência é adotar esse comportamento também, o que torna sua solução ainda mais complexa.
Por fim, indubitavelmente, medidas são necessárias para resolver esse problema. É fundamental, portanto, a criação de ações que popularizem o efeito que os antepassados têm sobre a forma de pensar da sociedade atual, pelo Ministério da Cultura, em parceria com o Ministério Público. Tais ações devem se dar por meio de vídeos nas redes sociais sobre a responsabilidade e a importância que a família tem na formação de uma opinião coletiva e dos indivíduos enquanto seres singulares, além de relatos de experiência, dados estatísticos, visando a quebra de paradigmas socialmente alimentados. Desse modo, é preciso que a comunidade brasileira olhe para a problemática com mais empatia, pois, como descreveu o poeta Leminski: “Em mim, eu vejo o outro”.