Liberdade ou opressão? O culto à forma física no século XXI

Enviada em 18/11/2020

Na obra “Ensaio Sobre a Cegueira”, o escritor José Saramago descreve uma epidemia que, ao se instaurar, intensifica vertiginosamente adversidades sociais. Fora da literatura, uma cegueira moral, similar à relatada no romance, impede que se enxergue as implicações que o culto à forma física tem atualmente na saúde dos indivíduos. Logo, deve-se analisar, como principal causa desse cenário, a busca cega por objetivos estéticos utópicos, a qual conduz a uma conjuntura de banalização de ações deletérias à saúde.

Primeiramente, a mentalidade de que há a necessidade da obtenção de um corpo perfeito, socialmente difundida pelos meios de comunicação, deve ser combatida. Isso porque, ao almejar a perfeição estética, as pessoas, na maioria das vezes, tendem a delegar a saúde ao esquecimento. Nesse sentido, E. Durkheim teorizou que a busca por objetivos inalcançáveis equivale à condenação, pelo próprio indivíduo, a um estado de infelicidade perpétua. Com isso, depreende-se que buscar um padrão de beleza utópico faz com que a infelicidade proposta pelo sociólogo funcionalista se instale no corpo social. Por conseguinte, afecções socioemocionais, como a depressão, culminam em atingir os indivíduos, uma vez que a fragilidade psicológica propicia tal fenômeno.

Além disso, a naturalização de procedimentos alimentícios, como o controle excessivo da ingestão ou o uso infundado de remédios emagrecedores, surge como latente consequência dessa conjuntura. Tal situação acontece, sobretudo, pela falta de criticidade da sociedade em face do problema. Sobre isso, a filósofa H. Arendt postulou, no livro “a Banalidade do Mal”, que, em um conjunto cujos indivíduos pouco criticam padrões socialmente estabelecidos, ações deletérias ao todo tornam-se banais. Sob essa ótica, atesta-se que a generalizada rarefação de debates, entre os atores sociais, sobre o impacto negativo que a adoção de medidas de autorregulação da ingesta alimentar pode causar, como bulimia e anorexia, catalisa um processo no qual isso deixa de ser contemplado como prejudicial. Assim, as pessoas, cegas da razão, possibilitam que o fato de venerar a estética permaneça em sociedade.

Portanto, é imprescindível que o culto à forma física seja combatido. Para isso, o Ministério da Saúde -responsável pela manutenção sanitária em território nacional- deve criar uma comissão itinerante especializada na temática da nutrição aliada ao bem-estar emocional. Essa comissão contará com nutricionistas e psicólogos, os quais farão apresentações na Federação acerca da conjuntura negativa da busca exacerbada por padrões estéticos, com a divulgação de dados contundentes sobre as doenças que permeiam essa atmosfera, a fim de subsidiar debates. Dessa forma, uma sociedade cujos princípios se afastarão de comparações com a obra de Saramago será alcançada.