Liberdade ou opressão? O culto à forma física no século XXI
Enviada em 29/04/2021
No mito de Narciso, a personagem principal perde o interesse por apreciar a vida, em detrimento do culto profundo da autoimagem. Analogamente, no século 21, muitos indivíduos se encontram desamparados emocionalmente e socialmente, por conta de problemas, como o culto exacerbado à forma física. Nesse sentido, o estabelecimento de padrões de beleza que não correspondem à realidade da maioria e a necessidade do indivíduo se enquadrar em tais estereótipos se revela uma grande fonte de ansiedade e aflição para essas pessoas. Desse modo, são prementes discussões acerca das consequências trazidas por esse panorama, em nome da integridade da sociedade.
A princípio, é patente que a convenção de metas inalcançáveis quanto à compleição física constitui uma ameaça ao bem-estar e qualidade de vida dos cidadãos. Nesse sentido, o psicanalista Antonio Quinet, em seu livro “Um olhar a mais”, revela que a sociedade é mediada pelo olhar. A partir dessa premissa, observa-se que o olhar autocentrado e egocêntrico, proporcionado pela busca incessante a objetivos estéticos, ratifica a existência de um corpo social individualista e competitivo, fato que se opõe ao convívio harmônico, à cooperação e à empatia entre as pessoas. Dessa forma, é notório que este meio em que o homem contemporâneo convive favorece o desenvolvimento de tendências autodestrutivas na espécie, como o isolamento social, transtornos de ansiedade e cobrança excessiva.
Ademais, vale citarar que as pressões sociais estabelecidas pelo cumprimento dos modelos estéticos induz a pessoa a ter dependência de se adequar a eles para se sentir bem. Nesse viés, o filósofo Michel Foucault, em seu conceito de biopoder, expressa que a sociedade se encontra manipulada por uma conjuntura econômica, política e social que lhe impõe uma norma a ser seguida por ela. Sob esse prisma, percebe-se que determinadas empresas manipulam as prioridades e interesses sociais, com o objetivo de atenderem aos interesses pessoais delas, de maneira a deixar omissa a prioridade coletiva de desincentivo à competitividade, à apatia social e ao individualismo. Por isso, é evidente que é incutida no meio social uma tendência de desatenção à qualidade de vida e às necessidades humanas fundamentais à realização social e emocional dos indivíduos afetados por esses padrões.
Portanto, é basilar que tais estereótipos sejam descolonizados, pois induzem a prejuízos à sociedade e ao indivíduo. Logo, urge que influenciadores digitais façam postagens informativas que orientem sobre os sérios efeitos da tentativa de atingir metas estéticas estabelecidas pelo outro, mediante o uso das mídias e de sites na internet, com o fito de libertar cidadãos da opressão social existente no século atual. Assim, será possível incentivar a desvinculação ao padrão de comportamento do antigo Narciso.