Limites devem ser impostos no mundo das artes?

Enviada em 28/09/2019

“Apagaram tudo/pintaram de cinza”. A canção “Gentileza” de Marisa Monte se refere aos grafites do Profeta Gentileza - figura lendária da cidade do Rio de Janeiro. Em 1980 ele encheu 56 pilares do viaduto Avenida Brasil com inscrições em verde amarelo, propondo sua crítica do mundo e suas alternativas ao mal-estar da civilização. Entretanto, as obras de Gentileza foram apagadas na década de 90, evidenciando um grande obstáculo no hodierno Brasil: a censura imposta a arte. Nesse viés, convém analisar como a herança histórico-cultural aliada a negligência do ensino sobre a arte, muitas vezes manifestado pelas escolas públicas, corroboram para a consolidação dessa mazela social.

É relevante enfatizar, em primeiro lugar, que a censura é fruto das várias transformações do século XX. Isso decorre, dos séculos XIV e XV, quando, à época, a sociedade era caracterizada por um mundo sólido e definido, onde as estruturas artísticas funcionavam de forma prática por meio dos estilos plásticos. Hodiernamente, como é evidente na teoria do sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, com a emergência da Globalização, fomentou a formação de uma realidade, metaforicamente, líquida, ou seja, esse mundo novo vive pautado não mais nos estilos artísticos sólidos e concretos, mas em algo incerto e indefinido. A sociedade, então, por tender a não assimilar tão bem tais transformações, ocorrem, lamentavelmente, a título de ilustração, a fiscalização e apreensão de livros com temática LGBT durante a Bienal do Livro, a mando do prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella.

Somando-se a isso, é imperioso salientar o desconhecimento sobre função da arte na sociedade. Isso porque a arte reflete a história e a cultura vivenciada por um povo, que consonante a Max Weber, a fim de compreender tal perspectiva, é inevitável viver inserido nela dia após dia. No entanto, ainda existem escolas em que as aulas de arte se resumem a copiar da lousa formas geométricas e, se não for exatamente o que está sendo pedido no exercício, lá vem uma caneta vermelha: está errado. Consequentemente, pela arte na escola ir além das aulas de pintura e desenho, não é à toa que a sociedade não se manifeste, quando, por exemplo, foram apagados os grafites do Profeta Gentileza.

Torna-se evidente, portanto, a necessidade de incrementos governamentais. Em razão disso, o Estado, pressionado por ONGs como a “MDM” - Movimento Dando as Mãos - crie um programa de nome “Arte Sem Fronteiras”, por meio da ampliação de verbas destinadas ao Ministério da Educação e Cultura. É mister, assim, que esse programa não só ensine e incentive a arte para os alunos da rede pública, mas também a população - em oficinas e instalações artísticas que mostrem a diversidade do mundo todo - com a finalidade de reduzir o preconceito histórico-cultural e em prol de tornar a educação artística mais fácil e inclusiva. Então, formar-se-ão, ao poucos, a realidade desejada pelo lendário profeta.

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