Limites devem ser impostos no mundo das artes?

Enviada em 19/11/2020

Quando Duchamp inaugurou o movimento dadaísta nas artes plásticas ao expor um mictório de ponta-cabeça em uma galeria clássica francesa, as críticas vieram em uníssono: aquilo não poderia ser arte, certo? Errado. A arte moderna surgiu num contexto de quebra de padrões e reestruturação das formas, no intuito de promover a pura expressão do ser e fomentar debates acerca da realidade. Em vista disso, a imposição de limites no mundo das artes caracteriza uma censura a liberdade do pensar e, portanto, nunca deverá existir.

Em primeira análise, pontua-se sobre o papel da manifestação artística na formação da personalidade e na exposição de uma visão particular do mundo. Quando Brasília foi projetada por Oscar Niemeyer a partir da ascensão de Juscelino Kubistchek, não havia limitações: o arquiteto deveria apenas desenhar uma cidade que representasse o Brasil. Marcada por curvas e assimetrias, a nova capital do país exalava não só a tropicalidade brasileira, como também exaltava a mão de obra nordestina, a leveza da sociedade tupiniquim e, claro, o panorama de Niemeyer sobre sua nação. Assim aconteceu também com Rodin, que esculpiu em “O pensador” sua noção de etnocentrismo racional. Cézanne, por sua vez, preferia a interpretação de efemeridade transmitida em suas naturezas mortas, e Toulouse-Lautrec a rapidez e expressividade da vida urbana. Ou seja, mais do que o senso estético, a arte atua como válvula de escape para a subjetividade, que toma forma nas mãos do artista.

Além do escapismo, a arte é responsável pela contestação de paradigmas. Pelo viés dialético, que formula a teoria do avanço social como um encontro entre a “tese” (a tradição) e a “antítese” (o novo), é possível perceber o papel da arte como impulsionadora de debates. A popularização do samba no início do século XX foi extremamente importante no reconhecimento da herança africana do Brasil, e precisou enfrentar olhares preconceituosos por parte da elite econômica e intelectual da época. Outro grande expoente da cultura nacional contemporânea surgiu na Semana de 1922, que colocou à prova todos os padrões literários e instituiu uma linguagem brasileira, irritando puristas da arte e da língua. A partir disso, é de fácil percepção que uma arte que incomoda alavanca discussões e debates importantes que foram, e continuam sendo, fundamentais na construção de uma identidade nacional comum.

Em suma, sendo a arte uma válvula de escape e um gatilho para debates, fica claro que a imposição de limites temáticos é inapropriada. Assim, cabe ao MEC, órgão responsável pela organização cultural nacional, o incentivo à produção artística, por meio de eventos gratuitos e de abrangência nacional que contem com saraus, espetáculos teatrais, mostras cinematográficas e outras vertentes artísticas, para que, então, limites no mundo das artes não sejam impostos, e sim derrubados.