Limites entre a liberdade de expressão e o politicamente correto

Enviada em 19/09/2019

Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, diz, em suas “Memórias Póstumas” que não teria filhos, a fim de nunca ter de esclarecer os legados das misérias humanas. Analogamente, o relacionamento tóxico entre as pessoas da atual sociedade e a falta de responsabilidade com as próprias palavras, enquadram-se no posicionamento da personagem, uma vez que se constituem como desafios a serem superados para estabelecer os limites entre a liberdade de expressão e o politicamente correto. Assim, é necessário discutir os aspectos sociais da questão, em prol do bem-estar social.

A priori, é importante destacar como é o comportamento das relações interpessoais na contemporaneidade. Segundo Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, a falta de solidez nas relações pessoais é característica da “Modernidade Líquida” vivida do século XXI. Em resumo, com a falta de consistência na sociedade atual as pessoas tornaram-se inconscientes do poder que seus atos tem para afetar negativamente a vida de outros indivíduos. Nesse sentido, o ser humano, ao acreditar que está dentro do limite de sua liberdade de expressão não percebe que está ofendendo outro indivíduo ou até mesmo um grupo de pessoas. Desse modo, fica evidente a urgência para que a sociedade compreenda o limite entre oque é a liberdade de expressão e aquilo que fere a integridade moral alheia.

A posteriori, é substancial discutir a falta de importância que o indivíduo atribui as próprias palavras. Conforma Sartre, filósofo francês, o ser humano é livre e responsável, cabe a ele escolher seu modo de agir. Entretanto, contradizendo o pensamento de Sartre, o ser humano do século XXI não se sente responsável por suas próprias atitudes. Assim sendo, é possível observar cada vez menos cuidado com aquilo que é dito, como é o caso do apresentador William Waack, que foi filmado disparando palavras racistas pouco antes de participar do programa Jornal da Globo. Logo, fica claro que as pessoas estão atribuindo cada vez menos importância as próprias palavras e se importam ainda menos se aquilo que foi dito é prejudicial a alguém.

Assim, medidas exequíveis são necessárias para conter o avanço da problemática da falta de compreensão entre liberdade de expressão e o politicamente correto. Para que as pessoas não sofram cada vez mais com uma sociedade liquida e que seja dado a devida importância as palavras que são ditas , urge que o estado, especificamente o Ministério da Educação, desenvolva nas escolas, aulas e palestras, com o intuito de incentivar a compreensão sobre a diferença entre a liberdade pessoal na fala e aquilo que fere a integridade moral do individuo. Dessa forma, a sociedade irá tornar-se mais justa e coesa e deixará um legado que Brás Cubas se orgulharia em repassar.