Limites entre a liberdade de expressão e o politicamente correto
Enviada em 02/03/2020
O ser humano, desde o início da sua existência pré-histórica, tem a necessidade de expressar algo, como por exemplo suas vivências, suas indignações, seus posicionamentos. Para isso, ele pode utilizar a pintura, as palavras e, mais recentemente, as redes sociais. Entretanto, em cada posicionamento é comum outras pessoas concordarem ou discordarem e quando o tema em questão é algo complexo como racismo, transfobia ou machismo, existe uma barreira que ao invés de através dos debates, construir alguma mudança positiva na sociedade, gera mais conflito e problematização: o “politicamente correto”.
Primeiramente é preciso entender que hoje no país existe uma consequência do “politicamente correto”, é a cultura do cancelamento. Esse costume é corriqueiro nas redes sociais que regem as relações humanas atuais e, geralmente, ocorre quando alguém faz uma afirmação que contraria um grupo e esse “cancela” o autor do texto em questão ao promover o boicote do mesmo. Podemos considerar essa atitude como uma forma de censura e ao fazer um paralelo com a microfísica do poder de Michael Foucault, podemos compreender que o poder não é algo que um indivíduo possui, mas é uma relação entre várias pessoas, uma exerce sob a outra. Desse modo se configura a censura atual, a qual não é mais imposta pelo Estado, mas acontece de um indivíduo a outro, um grupo a outro.
Além disso, é preciso compreender que o sistema educacional brasileiro não incentiva o debate, tanto na esfera pública, quanto na privada. Temas considerados polêmicos são pouco discutidos em sala, por exemplo o racismo que poderia ser discutido ao falar da escravidão, mas se torna apenas um conteúdo; nossa educação não é crítica, é quase toda “conteúdista”. Então, ao sair da escola não estamos prontos para debates de muitos temas e cada um quer que sua verdade seja universal. Sócrates ao utilizar a maiêutica afirmava que “a verdade está latente em todo ser humano, podendo aflorar aos poucos na medida em que se responde a uma série de perguntas simples”, isso quer dizer que a partir do debate com a criticidade, o questionamento sadio, ao final pode criar um consenso entre as partes, sem extremismos e sem a barreira do politicamente correto para podar a discussão.
Portanto para que se reduza a polêmica entre liberdade de expressão e politicamente correto, à longo prazo o Ministério da Educação pode exigir a reformulação do ensino de história e filosofia do Brasil. Com o objetivo de formar cidadãos críticos, conscientes e com capacidade de debater sem utilizar da “cultura do cancelamento”, por meio da recapacitação de professores que deverá ser feita com profissionais qualificados - pedagogos, filósofos e psicopedagogos - a qual poderá ser ministrada pessoalmente ou à distância, em vídeo-aulas.