Limites entre a liberdade de expressão e o politicamente correto

Enviada em 13/03/2020

As pessoas que se queixam dizendo que “tudo agora é politicamente incorreto” e se pretendem indignadas com essa “banalização” das queixas a respeito de preconceitos fazem algo que eu nem sei se se dão conta. Elas banalizam uma outra coisa, o tema da liberdade de expressão. De acordo com esse pessoal que repudia qualquer discurso sobre “politicamente incorreto”, tudo é uma ameaça à liberdade de expressão, uma forma de censura. Alguns defendem, na verdade, o direito de continuar se comportando como sempre se comportaram: ofendendo, desrespeitando, ignorando qualquer noção de dignidade, incentivando violências de todo tipo, etc. Mas para que eles mesmos possam posar diante das câmeras de TV ou figurar nas páginas de jornais e revistas como figuras “politicamente corretas” , eles defendem este discurso sob a o escudo da “liberdade de expressão”. Queixam-se da limitação da linguagem. Sinceramente, não vi nenhum bom humorista deixar de fazer humor porque não pode ofender da pior forma outras pessoas. E é nesse ponto que a gente percebe que essa insatisfação com o “politicamente correto” carrega em si outro pressuposto horroroso: o de que os movimentos sociais são inimigos das pessoas comuns e da sociedade. Como se eles fossem algozes que espreitam cada movimento, cada troca verbal, para poderem, na hora certa, denunciar alguém por racismo, homofobia ou xenofobia. Como se ele fossem implacáveis juízes que esperam ouvir qualquer palavra como “negão” ou “veado” para apedrejar publicamente a pessoa que a proferiu sem levar minimamente em conta o contexto em que foi dito. Isso é um equívoco que, no entanto, é transmitido como se fosse verdade por parte de jornalistas, artistas, etc.Gays e heterossexuais podem usar palavras como “veado” ou “bicha” sem, no entanto, estar incitando à violência homofóbica. Também não me parece que haja um repúdio por parte de pessoas negras a palavras como “nego” ou “negão”. A questão não são as palavras em si, mas o uso que cada um faz delas em diferentes contextos.