Limites entre a liberdade de expressão e o politicamente correto
Enviada em 03/05/2020
As censuras contemporâneas
A Terceira Revolução Industrial, que consolidou a informática no mundo, é a responsável pela expansão da difusão cultural, feita por intermédio das plataformas digitais. Dessarte, do mesmo modo que a imprensa, criada por Gutemberg, ampliou a circulação de ideias no século XV, a internet faz surgir, hoje, uma nova revolução na comunicação, divulgando pensamentos e opiniões, muitas vezes divergentes e provocando debates acerca do limite da liberdade de expressão. Sendo assim, é mister entender como o politicamente correto e a cultura do cancelamento endossam esse dilema.
Em primeiro plano, é necessário compreender o papel do politicamente correto para a contestação da autonomia de fala. Essas manifestações surgiram a fim de dar voz às lutas sociais e quebrar padrões discriminatórios contrários à equidade social. Todavia, atualmente, esse conceito foi deturpado e é usualmente empregado como forma de justificar discursos de ódio, se tornando uma nova ferramenta de censura, que se empodera de causas sociais nobres para silenciar aqueles com opiniões divergentes. A exemplo disso, tem-se o caso da participante do Big Brother Brasil 20, Gizelly Bicalho que, ao brincar sobre a base de sua amiga, foi taxada de racista por associar a maquiagem ao barro.
Juntamente a isso, há a cultura do cancelamento como um obstáculo à liberdade de expressão. Sob esse prisma, tem-se a fala do sociólogo Zygmunt Bauman a respeito da “Modernidade Líquida”, a qual revela que a vida atual é pautada em fluidas relações sociais. Assim, o estudioso expõe o individualismo crescente no corpo social, fato que propulsiona essa atitude. Isso ocorre porque, envoltos em um mundo particularizado, é mais simples ao receptor difamar uma pessoa com convicções contrárias as dele do que aceitar o diferente, estabelecendo, portanto, um novo tipo de repressão. Esse fato é evidenciado, sobretudo, no meio virtual com a banalização de hastags, como a #OverParty, que têm como objetivo cancelar famosos, frequentemente sem uma alegação coerente.
Por conseguinte, medidas hão de ser tomadas. Primeiramente, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, órgão responsável por afirmar a ética no merchandising, deve impedir propagandas que gerem qualquer tipo de constrangimento ou opressão ao consumidor. Isso seria possível por meio da parceria com a mídia e delimitaria a liberdade comercial. Ademais, a Secretaria de Direitos Humanos, a partir da cooperação com a Secretaria Especial de Comunicação Social, precisa demarcar os limites da liberdade de expressão, reforçando projetos como o “Nas redes sociais, diga o que pensa…sem ofensas”, que lutam em prol do respeito em primeiro lugar. Desse modo, garantir-se-ia um melhor uso da internet, consolidada na Terceira Revolução Industrial.