Limites entre a liberdade de expressão e o politicamente correto
Enviada em 02/09/2020
O documentário “O riso dos outros”, mostra de forma imparcial o posicionamento de profissionais da área sobre o limite do humor. Assim como no curta muitos indivíduos sentem-se acuados pelo que os humoristas chamam de “patrulhamento”, termo que representa uma problemática contemporânea: as críticas as quais cada posicionamento e opinião estão sujeitos quando expostos. Dessa forma, cabe-se discutir sobre o linchamento virtual e a importância do “politicamente correto” para a sociedade.
Em primeira análise, é importante destacar que, em função das novas tecnologias e da consolidação de um Estado democrático, há tanto um maior contato com diferentes formas de pensar, quanto um maior atrito entre elas. Nesse sentido, a liberdade de expressão, que em diversos momentos históricos foi suprimida, a exemplo do Estado Novo e da Ditadura Militar, é paradoxalmente a beleza e o desafio da internet. Isso porque, ao passo que mais pessoas têm a oportunidade de se expressar, muitas também tentam impor seu ponto de vista à cada posicionamento contrário que elas se deparam. Decerto, apesar desses ataques causarem desconforto às suas vítimas, tais práticas não constituem uma forma de censura, mas sim uma distorção do direito garantido pelo art. 5° da Constituição Federal.
Entretanto, é notório que a maior parte do linchamento virtual ocorre sobre falas baseadas em discursos intolerantes, reverberados não só pelo anonimato da internet, mas também pela barreira física existente entre os internautas. Da mesma maneira, a maior parte das críticas que os comediantes citam no documentário são por fazer piadas homofóbicas, machistas, classistas, entre outras que atacam minorias. Portanto, muitas vezes o “politicamente correto” é, na verdade, uma forma de grupos historicamente silenciados se posicionarem contra um discurso dominante. Assim como afirmado por Karl Popper em sua teoria “Paradoxo da Tolerância”, usar a própria liberdade política, a fim de combater esses discursos de forma racional e respeitosa, ou seja combater a intolerância com intolerância e não com a censura, é uma das formas mais pertinentes de fazer uso dessa conquista democrática.
Em suma, entende-se que é por meio de tal mecanismo de “patrulhamento” que a sociedade, mesmo que por vezes de forma exagerada, tenta mostrar seus valores, principalmente, aqueles que estão em construção. Dessa forma, a fim minimizar as dificuldades de lidar com opiniões diferentes, cabe a mídia em parceria com o Ministério da Educação, elaborar campanhas publicitárias que expliquem a importância de respeitar a diversidade seja ela política, artística, social, entre outras, além de esclarecer a possibilidade de penalização daqueles que propagam discurso de ódio, por meio de sua veiculação nos jornais, nos programas de TV e nas redes sociais. Só assim não caberá mais ao Estado censurar certos humoristas, mas a sim, à sociedade decidir se a piada feita por ele terá graça ou não.