Limites entre a liberdade de expressão e o politicamente correto

Enviada em 02/12/2020

Em 2015, o jornal francês Charlie Hebdo sofreu um ataque terrorista, como resposta à publicação de uma sátira à religião muçulmana em uma de suas edições. Na época, o atentado acirrou a discussão acerca dos limites entre a liberdade de expressão e o politicamente correto, termo usado para descrever ações que evitam ofender grupos. Na hodiernidade, sabe-se que o problema é acentuado pela possibilidade de anonimato, o que pode gerar cada vez mais violência, além de disseminar a aversão a determinados setores da sociedade. Faz-se necessário, portanto, debater as causas e consequências da questão, em prol do bem-estar coletivo.

Diante desse cenário, é importante ressaltar os motivos que influenciam a propagação de discursos de ódio, como a falta de fiscalização na internet, a chamada “terra de ninguém”. Nesse viés, devido à facilidade de criação de perfis falsos, torna-se mais simples transmitir conteúdos que podem ofender ou agredir grupos, sem que o infrator seja sequer reconhecido. Como consequência, muitas pessoas se aproveitam do anonimato e da impunidade para perpetuar a questão, valendo-se, muitas vezes, da liberdade de expressão para fins prejudiciais. Tal ideia corrobora com o pensamento do filósofo Rousseau, o qual dizia que o homem é um produto do meio em que vive, provando que a ausência de medidas visando solucionar o entrave provoca sua continuação.

Por conseguinte, ainda convém lembrar como a liberdade desmedida traz impactos negativos à sociedade, visto que pode gerar reações violentas dos grupos atingidos. Prova disso foi o Massacre de Columbine, ocorrido nos Estados Unidos, no qual dois alunos mataram doze colegas, como forma de vingança pelo bullying sofrido. Não obstante, o ódio propagado, além de acentuar estereótipos, invalida a luta de inúmeras minorias. Destarte, nota-se que, embora assegurado pelo artigo 5º da Constituição Federal, o direito à expressão deve ser consciente, com o intuito de promover o respeito a todos os cidadãos.

É perceptível, dessa forma, que os limites entre a liberdade de expressão e o politicamente correto devem ser estabelecidos. Por isso, é imprescindível que as escolas conscientizem seus alunos, por meio de aulas direcionadas, nas quais profissionais qualificados expliquem as consequências da propagação de discursos de ódio, a fim de reduzir a incidência da questão desde a infância. Ademais, é necessário que a mídia, como formadora de opinião, aborde o tema, por meio de novelas e filmes, com o propósito de mostrar maneiras de expor suas ideias sem ferir os direitos do outro. Dessa maneira, será possível minimizar o entrave, assegurando que o ocorrido com o jornal francês possa permanecer no passado.