Limites entre estética e saúde
Enviada em 27/02/2020
Segundo o pensamento platônico, os fenômenos do mundo sensível são hierarquizados de acordo com a maior proximidade ou distanciamento que se tem da ideia pura, que revela a verdade. Sendo assim, há vários elementos que influenciam a idealização do corpo perfeito, dentre eles, a mídia, que evidenciou padrões para o corpo feminino, primeiramente através do cinema, depois pela televisão, e, atualmente pela internet. Adicionalmente, a cultura vigente no campo da Medicina, a qual preconiza o ato de tratar doenças já instaladas como principal meio para se atingir a saúde, acaba atuando como um forte efeito moral sobre os indivíduos.
Em primeiro plano, constata-se que o viver nesta sociedade líquido-moderna, está marcado pela competição acirrada dentro das relações humanas. Esta é comparada por Zygmunt Buman à dança das cadeiras, em que todos buscam o “prêmio final” de evitar serem descartados. Nesse contexto, as mídias sociais dissolvem a capacidade de valorização da essência e da coexistência harmônica. O mundo virtual apresenta um cenário demasiadamente idealizado e estilizado, através da propagação de imagens de homens e mulheres musculosos, aparentemente bem-sucedidos, sensuais e felizes. Essa exposição prolongada pode provocar baixa autoestima e uma autopercepção doentia.
Além disso, a partir do momento em que a Medicina é fragmentada em diversas especialidades e ocupa-se majoritariamente, em curar doenças, o Homem também passou a enxergar seu corpo por partes, e a menosprezar o equilíbrio integral do organismo. Contrariamente, o médico e filósofo francês Georges Canguilem, no século XX, ressaltou que a saúde deve ser medida pela relação das normas biológicas com o meio ambiente. Isso significa que é fundamental o desprendimento das exigências normativas, como finas silhuetas e os músculos evidentes, para a compreensão de que ser saudável dependerá de práticas criativas, ativas e preventivas, envolvendo não somente o cuidado com o físico, mas também com o social, o espiritual e o psicológico.
Destarte, em uma era marcada pela exposição do corpo, através das mídias sociais e de uma grande oferta de procedimentos estéticos, a busca pela perfeição é inerente. Para combater consequências desse processo, como anorexia, ansiedade e depressão, influenciadores digitais devem priorizar a expansão de informações relevantes em suas páginas, a respeito de hábitos saudáveis sem induzir que os seguidores pratiquem sua rotina, e ressaltando a importância de acompanhamento médico. Cabe às universidades, o desenvolvimento de projetos multidisciplinares, para a conscientização da população, sobre o papel de nutricionistas, farmacêuticos, pscicólogos e educadores físicos, para uma prevenção efetiva de doenças. Dessa maneira, a sociedade tornar-se-á mais apta a priorizar o seu bem-estar.