Limites entre estética e saúde

Enviada em 07/06/2020

O livro “O Espelho”, do escritor brasileiro Machado de Assis, discorre sobre a trajetória de Jacobina, personagem que faz uma reflexão acerca da existência de uma “alma exterior” aos indivíduos, a qual é caracterizada pela valorização da aparência em detrimento da verdadeira personalidade individual. Fora da ficção, é fato que a idealização da imagem abordada pelo autor pode ser relacionada ao paradigma do culto ao corpo ideal vigente no Brasil hodierno, que traz à tona os limites entre a estética e a saúde. Nesse sentido, é primordial analisar o papel da cultura de massa, bem como o da superexposição nas redes sociais no agravamento dessa situação problemática.

É válido ressaltar, nessa linha de raciocínio, que o advento da internet possibilitou uma maior manipulação comportamental dos internautas oriunda dos veículos midiáticos. Tal fenômeno é ratificado pelo conceito de “Indústria Cultural”, o qual foi proposto por Theodor Adorno e Max Horkheimer - pensadores da Escola de Frankfurt - e evidencia que as grandes empresas, a partir da difusão de propagandas, tornam o gosto individual dos consumidores homogêneo, visando à promoção do consumismo e à consequente obtenção do lucro máximo. Dessarte, infere-se que essa cultura de massa está diretamente atrelada à manutenção dos padrões estéticos, haja vista que estes são constantemente expostos à população por intermédio das propagandas.

Ademais, percebe-se que as redes sociais se tornaram um veículo de exposição exacerbada dos internautas e de enaltecimento da aparência. Em um episódio da série “Black Mirror”, por exemplo, a protagonista busca obter uma melhor avaliação em uma plataforma de interação social aparentando ter uma personalidade ideal para agradar os demais usuários. Essa questão vai ao encontro ao conceito de “Sociedade do Espetáculo”, o qual foi postulado pelo sociólogo Guy Debord e expõe que a sociedade contemporânea é marcada pela valorização da imagem. Por conseguinte, denota-se que, reiteradamente, os indivíduos recorrem a cirurgias plásticas e à má alimentação para se adequarem aos padrões estéticos e se exporem, o que pode causar distúrbios de saúde, como anorexia e bulimia.

Depreende-se, portanto, que a cultura de massa e o enaltecimento da aparência contribuem para essa situação problemática. Posto isso, com vistas a desconstruir o paradigma da valorização dos padrões estéticos, urge que o Ministério da Educação crie, por meio de parcerias com redes de televisão, campanhas publicitárias que serão expostas nos intervalos das programações televisivas. Essa medida deverá explicitar os objetivos da cultura de massa, orientando o telespectador acerca dos possíveis riscos à sua saúde. Somente assim, poder-se-á atenuar esse impasse, criando um contraste entre a realidade e a existência da “alma exterior” retratada por Jacobina em “O Espelho”.