Limites entre estética e saúde
Enviada em 18/06/2020
Na mitologia grega, Procusto é um bandido que convida viajantes na terra de Elêusis a entrarem em sua casa e deitarem na cama de ferro que tem sua medida exata. Se a pessoa for maior do que a cama, é cortada para nela caber; se for menor, é esticada com a mesma finalidade. Na realidade dos dias que correm, o mito de Procusto é a analogia ideal para a problemática dos padrões estéticos e da saúde, que se tornaram sinônimos - sendo que, necessariamente, não são. As consequências dessa correspondência podem atingir diversos níveis de gravidade, em sua maioria, desfavoráveis.
Em primeiro lugar, é preciso notar que, durante anos, em meio aos infindáveis filmes, propagandas e revistas, foi estabelecido um padrão de beleza. Devido aos processos coletivos da sociedade, é inevitável o surgimento de padrões e suas variáveis. Entretanto, existem limites entre a estética e a saúde que devem ser analisados e, geralmente, são reconhecidos por aspectos psicológicos e comportamentais. Segundo Joana Novaes, escritora e coordenadora do núcleo de doenças da beleza na Pontifícia Universidade Católica, quem se encontra fora do padrão atual de estética é associado com alguém doente, descuidado, ou até mesmo sujo. Posto isso, é possível constatar a associação entre a estética e a saúde, e a intolerância e exclusão que podem surgir desse fenômeno.
Ademais, existem inúmeras consequências que surgem da obsessão com os padrões de beleza que afetam diretamente a saúde do indivíduo. De acordo com o psiquiatra Rodrigo Ramos, em entrevista ao Domingo Espetacular, o transtorno dismórfico é um fenômeno recorrente no qual a pessoa tem pensamentos como “eu tenho defeitos” ou “os outros vão me achar horrível”. Em meio aos conflitos internos, o indivíduo busca intervenções e resoluções externas, realizando, por exemplo, cirurgias plásticas descontroladamente. Além disso, transtornos como bulimia, anorexia e ansiedade são realidades comuns nos dias que correm, revelando a insatisfação que existe na sociedade para consigo mesma, na busca por uma estética utópica que gera sérios danos a própria saúde.
Destarte, para desmistificar a estética e trazer à tona padrões de vida saudáveis, o Ministério da Saúde deve desenvolver um projeto que aborde a problemática, suas causas e consequências. O projeto deve começar por uma pesquisa disponibilizada na internet, para selecionar as pessoas afetadas; essas, por sua vez, terão a oportunidade de participar de um planejamento de recuperação da saúde física e mental. Isso deve ser feito por meio da disponibilização de profissionais da saúde, como médicos e psicólogos, com a recomendação de consultas individuais. Ainda, deve haver divulgação sobre a temática nos meios de comunicação. Desse modo, os limites entre estética e saúde serão re-estabelecidos, e haverá conscientização da sociedade, para seu bem estar.