Limites entre estética e saúde

Enviada em 06/10/2020

Na Grécia Antiga, o ser “belo” era visto como aquele que possuía harmonia e proporção em relação às partes de seu corpo, algo totalmente idealizado e deturpado. Nesse viés, em um país democrático, ironicamente, as pessoas estão cada vez mais escravas de tal idealização estética, visto que procedimentos exacerbados e muitas vezes, desnecessários e ilegais, têm causado milhares de consequências e até mesmo mortes. Dessa forma, discussão sobre a exclusão de indivíduos que não se enquadram no padrão de beleza e a imposição de um estereótipo, são extremamente necessárias.

Em primeira análise, é evidente que a herança ideológica de perfeição, como um recurso destinado a enaltecer somente aqueles que se enquadram, conservou-se na coletividade e perpetuou a exclusão dos demais indivíduos que ficam a mercê de ataques ofensivos. Dessa maneira, no filme “o extraordinário” retrata a história de Auggie - um menino com uma anomalia incomum de deformação facial – que mostra nitidamente o quão difícil foi se encaixar e ser aceito na escola simplesmente pelo fato de se diferenciar dos demais e o quanto isso o afetou, visto que foi alvo de piadas. Evidencia-se, portanto, que o estereótipo de beleza implica de forma direta nas relações do indivíduo e como, de fato, ele é aceito no âmbito social, urgindo mudanças que deixem que a aparência física influencie no convívio com a população.

Em segunda análise, vale ressaltar que a indústria de estética no Brasil cresce cada vez mais, uma vez que a ambição e almejo dos corpos e rostos ideais se tornam intensas e, da mesma maneira, prejudiciais a saúde tanto física, como psicológica. Analogamente, na contemporaneidade, a mídia também atua na exteriorização de tais ideais utópicos de perfeição o que, a exemplo, mostra na música ‘‘Receita de Mulher” do grande poeta Vinícius de Moraes, quando diz que “as muitas feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”, o qual mostra a equívoca ideia de que o belo é algo estereotipado. Em vista disso, torna-se perceptível que a busca inalcançável da perfeição cria decepções que levam a procedimentos excessivos ou até mesmo à depressão.

Logo, de acordo com os argumentos supracitados, é evidente que deve haver a colaboração de toda a população em prol da valorização do ser como ele é. Sendo assim, o Governo Federal - principal agente que rege leis - deve intervir com cláusulas que fiscalizem melhor clínicas estéticas e com palestras, com participações de especialistas, que informem sobre a utopia da beleza, através de maiores verbas e apoio direcionado a tais setores, para que possamos alterar a realidade tão banal quando relacionada a padrões impostos. Somente assim, poderemos quebrar nosso pensamento grego de “belo”, e afirmar a miscigenação do nosso país com a aceitação do que se diz diferente.