Limites entre estética e saúde
Enviada em 09/10/2020
O mito de Procusto conta a breve história de um bandido da beira da serra de Elêusis; ele convida os viajantes a entrarem em sua casa e deitarem em sua cama de ferro (com a medida exata de si próprio). Se a pessoa é maior, deve ser cortada para nela caber, se for menor, esticada com a mesma finalidade. A analogia de Procusto é ideal para as relações atuais entre beleza e saúde. O padrão estético se tornou sinônimo de vida saudável - sendo que, necessariamente, não o é. As consequências dessa correspondência podem atingir diversos níveis de seriedade, sendo em sua maioria desfavoráveis ao indivíduo e a sociedade.
Primeiramente, cabe analisar o estabelecimento do padrão. Em uma sociedade diversa é comum o surgimento de grupos com características específicas bem como pontos comuns a todos (ou quase todos). O problema se encontra em tornar esse processo natural uma regra, haja vista que de tal comportamento surge a intolerância. De acordo com Joana Novaes, escritora e coordenadora do núcleo de doenças da beleza da Pontifícia Universidade Católica, quem não se encaixa nos padrões de beleza é visto como doente, sujo e/ou descuidado por muitos. Assim sendo, nota-se quão prejudiciais a correspondência obrigatória dessas duas ideias/termos pode ser.
Ademais, do preconceito e da exclusão geradas é possível perceber consequências desfavoráveis ao indivíduo e ao todo. Segundo Rodrigo Ramos, psiquiatra em entrevista ao Domingo Espetacular, a falta de limite entre a estética e a saúde acarreta em problemáticas como o transtorno dismórfico. A pessoa tem pensamentos do tipo “eu tenho defeitos” ou “as pessoas vão me achar horrível”. As questões internas, por sua vez, são tratadas externamente com cirurgias plásticas ou métodos de transformação de imagem descontrolados e desnecessários, com a possibilidade de causar sérios danos na saúde do indivíduo. Além disso, o produto de tais fenômenos é um povo doente psicológica e emocionalmente, fragilizado por padrões inúteis ao homem.
Destarte, para que os padrões estéticos retornem ao seu posto de menor importância e a vida saudável seja o ponto mais relevante, o Ministério da Saúde deve desenvolver um projeto que vise a propor uma pesquisa geral na sociedade, por um site, para selecionar pessoas que se enquadram em transtornos e afins, relacionados a problemática. O projeto deve oferecer um programa de recuperação por meio de médicos e psicólogos, por preços acessíveis - e sempre apontando para consultas constantes e individuais. Ainda, deve haver divulgação em massa pelos meios de comunicação para que todos sejam devidamente informados. Desse modo, a correspondência patológica será amenizada e os limites entre beleza e saúde, estabelecidos.