Limites entre estética e saúde

Enviada em 05/12/2020

Na obra “A República”, o filósofo grego Platão aborda o Mito da Caverna sob um viés metafórico, em que a sociedade encontra-se aprisionada. Nela, pontua-se o conhecimento a partir das impressões aparentemente notáveis pelos homens, através das sombras, em detrimento do conhecimento científico. Nessa perspectiva, os limites entre estética e saúde, no mundo atual, questiona a vulnerabilidade do bem-estar, intensificado pela mídia excludente, para realizar os desejos da autoestima em prol da mercantilização da beleza.

É relevante abordar, primeiramente, os fatores que perduram na realidade brasileira e contribuem para o aumento de procedimentos estéticos. Nesse sentido, os padrões de beleza ilusórios e restritivos sustentados pelos meios de comunicação de massa - especialmente pelas redes sociais e pelos recursos de edição de imagem - pressionam a autoestima e a autocobrança dos indivíduos em uma sociedade altamente competitiva e insegura. Para tanto, análogo à “Sociedade do Espetáculo”, do sociólogo Guy Debord, o poder espetacular corresponde a uma fase específica da sociedade capitalista, quando há uma interdependência entre o processo de acúmulo de capital e o processo de acúmulo de imagens. Assim, a estética atual busca a aceitação pela aparência e juventude, e não somente qualidade de vida e bem-estar, como apregoa o discurso falacioso da mídia.

Não obstante, cabe ressaltar as consequências dessa dicotomia problemática. Destarte, os impactos na saúde física e mental, como transtornos alimentares diversos, procedimentos estéticos arriscados, isolamento social, angústia, ansiedade e depressão são massificados pelo anseio de se enquadrar aos padrões. Portanto, a negligência do conhecimento científico acerca dos limites do corpo humano intensificam os casos recentes de mortes após cirurgias plásticas, como a de uma mulher atendida pelo “Doutor Bumbum”, no Rio de Janeiro em 2018, remetem a falhas em hospitais e clínicas que poderiam ser evitadas pela mercantilização estética.

Infere-se, portanto, a necessidade de erradicar o pensamento metafórico, como o de Platão, de que não há limites para a estética. Logo, a mídia, com o poder persuasivo, deve, por meio de campanhas nas novelas e propagandas, desconstruir os padrões estéticos e apresentar a coexistência dos diversos modelos físicos de beleza, a fim de trazer representatividade à população miscigenada. Para dialogar com os jovens, a escola deve incitar debates e a reflexão sobre a temática com o acompanhamento profissional de psicólogos, educadores físicos e nutricionistas e, assim, desmistificar o mito da beleza.