Limites entre estética e saúde

Enviada em 29/12/2020

De acordo com o filósofo Michel Foucaut, em sua obra “Microfísica do Poder”, os padrões e conceitos adotados por uma sociedade são oriundos das relações de autoridade exercidas por instituições com o objetivo de criar uma “normalidade”. Neste sentido, a realidade observada é consoante com a ideia do pensador, à medida que a busca para se encaixar nos padrões de beleza propagados pelas mídias, extrapola, com frequência, os limites entre estética e saúde. Ressalta-se ainda, que a facilidade de se realizar procedimentos cirúrgicos no país corrobora com esse problema. Isto posto, torna-se fundamental a discussão dos aspectos motivadores desse comportamento.

Precipuamente, é essencial que a ascendente procura por procedimentos estéticos deriva da enorme manipulação dos veículos de comunicação e das redes sociais, ainda que de forma velada. Inegavelmente, a todo tempo, são apresentadas milhares de referências: curvas esculpidas, músculos proeminentes, seios voluptuosos, além de cabelos e peles perfeitos. Tudo isso desperta, consciente ou inconscientemente, o desejo de assemelhar-se à modelo da propaganda na revista. Em decorrência desse anseio, o Brasil conquistou, em 2018, a liderança mundial em realização de cirurgias plásticas, conforme dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética. Diante desses números, é grande a necessidade de uma reformulação entre os conceitos de bem-estar e estética.

Outrossim, seguindo o conceito de “Industria Cultural”, proposto pelos pensadores alemães, Adorno e Horkheiner, cultiva-se na população uma falsa necessidade psicológica que só será satisfeita por produtos do capitalismo. Analogamente, para uma crescente parcela da sociedade, as cirurgias plásticas e operações estéticas apresentam-se como serviços essenciais. Em consequência a esta banalização dos procedimentos cirúrgicos, não são raros os casos de óbitos, bem como de sequelas, oriundos de intervenções feitas com imperícia. Essas noções revelam a fragilidade da vida em detrimento de um padrão de perfeição corporal imposto.

Ante o exposto, com o intuito de evidenciar os limites entre saúde e estética, necessita-se que o Governo, na figura do Ministério da Saúde em parceria com o Ministério da Educação, realize campanhas educativas, em escolas e centros de convivência, propagando ideias de autoaceitação, enfraquecendo o conceito de um protótipo de corpo perfeito, e ainda, destaque os perigos das intervenções feitas em prol da beleza. Assim, em médio e longo prazo, serão atenuados os impactos nocivos na saúde, e a sociedade não mais será oprimida por uma “normalidade”.