Limites entre estética e saúde

Enviada em 11/01/2021

‘‘O Mito da Beleza’’, livro de 1990, escrito por Naomi Wolff, trata da beleza como uma imposição social que oprime. A estética padrão e normativa é definida pela sociedade. Muitas pessoas, em grande maioria mulheres, passam, inclusive, por procedimentos estéticos não necessários, se mutilam, com a finalidade de alcançar um modelo de beleza fora de sua realidade. Portanto, cabe analisar quais são os motores que impulsionam esse mito e as consequências pra quem por ele é afetado.

Primordialmente, vale ressaltar que na época da publicação da obra de Naomi, a mídia que ditava as regras da beleza era as revistas, jornais, a televisão. Hoje em dia, o acesso a esse padrão nos é imposto também nas redes sociais, fenômeno que atinge milhões da população mundial. A propaganda, que serve aos interesses dominantes, define a cor, o peso, o cabelo, o formato do nariz ideais. Isso faz com que homens e mulheres queiram ser diferente do que são e ultrapassem o limite entre saúde e estética, ou quando não é possível, ao menos o almejam. A certo momento não se sabe mais se a pessoa perdeu sua individualidade e naturalidade e está a mercê da determinação social do que é o belo, o bonito, o normal. Urge que a sociedade seja despertada e esse mito descontruído.

Por conseguinte, essas pessoas passam por processos que são mais maléficos que benéficos. Junto com o pacote da cirurgia, está o risco de morte. A ex-passista de Carnaval, Érica dos Santos, faleceu devido a complicações após realizar hipoaspiração e cirurgia nos seios, feita de maneira negligente. Quem a matou foi o médico, é claro, mas também o patriarcado e toda a estrutura social que faz com que as mulheres rejeitem a si mesmas. Quer dizer, as pessoas se arriscam, passam por mutilações, quando não vem a óbito, para estar dentro do padrão de beleza. Além disso, há quem não faça procedimentos, todavia tem a saúde mental afetada, por não se parecer com a pessoa ‘‘perfeita’’ que vê no Instagram. Com isso, surge a insegurança, que está ao lado da não-aceitação social.

Portanto, é de se concluir que a beleza, como uma imposição social, afeta a saúde das pessoas. Algumas medidas poderão ser tomadas para desmitificar esse ideal que ultrapassa o possível. As empresas de publicidade devem exigir modelos com características múltiplas, para que as pessoas, diferentes umas das outras, se enxerguem na mídia. Além disso, é necessária uma reforma cultural na sociedade, para que, como bem disse a filósofa Simone de Beauvoir, nada nos defina ou nos sujeite. Isso será possível por meio do diálogo de homens e mulheres e a construção de perspectivas novas acerca do que é belo, com a autoaceitação.