Limites entre estética e saúde
Enviada em 06/01/2021
No livro “Triste fim de Policarpo Quaresma”, do escritor Lima Barreto, o protagonista goza de uma imagem extremamente positiva do Brasil que, na opinião dele, necessita de apenas alguns ajustes para tornar-se uma nação desenvolvida. Contudo, fora da literatura, na contemporaneidade brasileira persistem entraves que atrasam o desenvolvimento da nação, dentre eles destaca-se o culto à beleza exagerado que coloca a saúde em segundo plano. Tal cenário é fruto de fatores sociais e, também, governamentais no Brasil.
Primeiramente, é imperioso considerar o aspecto social dessa problemática. Na obra “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, o autor demonstra, por meio da mudança comportamental dos personagens, como o ambiente em que os indivíduos estão inseridos é capaz de orientar os seus comportamentos e pensamentos. Nessa perspectiva, ao trazer essa lógica à luz da sociedade brasileira, que é altamente influenciada pelas mídias aos “padrões de beleza” que elas criam, constroe-se um meio propício à corrida pela estética, visando um “corpo perfeito” que, em geral, não é o da maioria da sociedade e é extremamente difícil de conquistar por meios naturais, forçando o uso de procedimentos que podem ser danosos à saúde. É essencial reverter esse quadro favorecendo a saúde dos cidadãos.
Além disso, nesse imbróglio existe uma grande responsabilização governamental e legal. A Constituição Federal de 1988, a principal carta jurídica do país, defende a saúde de todos os brasileiros como algo fundamental à nação. No entanto, há uma ineficácia governamental em orientar a população sobre os riscos dos procedimentos estéticos, somado a isso, a falta de leis que regulem os limites dos procedimentos estéticos, e a ausência de punição aos profissionais que colocam em risco a vida do indivíduo, em favor de algum benefício estético, são impasses que necessitam ser mitigados da maneira mais urgente e eficaz possível.
Depreende-se, portanto, ser mister intervenções que mitiguem o problema entre os limites de estética e saúde. Em primeiro lugar, o Ministério da Educação, aliado à Secretaria Estadual de Educação de cada um dos Estados, poderia promover palestras, aulas e debates em escolas públicas e privadas, ensinando, às crianças e adultos, os perigos e cuidados que se devem ter em relação ao culto exagerado à estética. Ademais, o Congresso Nacional, com sanção do Presidente da República, promulgaria uma lei regulamentando, de maneira discutida com profissionais, os limites dos procedimentos estéticos e garantindo uma sanção penal aos profissionais que não seguissem os protocolos legais, colocando a vida de seus clientes em risco. Com tais medidas, o Brasil estaria mais próximo da nação desenvolvida almejada por Policarpo Quaresma.