Limites entre estética e saúde

Enviada em 11/01/2021

“No meio do caminho tinha uma pedra”. Esse verso do poema homônimo de Carlos Drummond de Andrade pode ser associado a uma temática atual; já que, em meio a uma era de grandes avanços no Brasil, a ultrapassagem do limite entre a estética e a saúde funciona como uma “pedra” que dificulta o continuísmo do progresso brasileiro. Logo, faz-se necessário debater essa problemática, a fim de minimizá-la.

Diante de tal cenário, é válido ressaltar, inicialmente, que a Constituição de 1988, em seu artigo 6º, garante aos nativos direitos sociais, como saúde. No entanto, o que se nota, pois, na contemporaneidade, é a inoperância dessa garantia constitucional, haja vista a mínima expressividade desse Estado, ainda em vigor, no que tange à redução dos padrões estéticos impostos pela mídia. Isso pode ser comprovado quando são expostos comerciais representando mulheres com determinado estereótipo físico como o considerado bonito, logo, pessoas que não se encaixam nesse padrão sentem a necessidade de realizar cirurgias plásticas, mesmo quando há risco de comprometer a saúde. Tal contexto demonstra, por conseguinte, um quadro social caótico, o qual precisa ser combatido para a efetivação dos direitos constitucionais.

Além disso, é mister salientar que o individualismo é responsável por comprometer essa pressão estética, pois grandes influenciadores digitais vendem uma imagem banalizada desses procedimentos. Isso ocorre porque, conforme o escritor José Saramago propõe, em seu livro “Ensaios sobre a cegueira”, há uma “cegueira moral” presente na conduta de muitas pessoas, o que impede uma valorização de interesses benéficos à coletividade. Dessa forma, o que antes não era considerado um problema na aparência de muitas pessoas, passa a ser um incômodo para as mesmas. Não é de se estranhar, portanto, que o número de cirurgias plásticas em adolescentes, de acordo com a Sociedade Brasileira para Cirurgias Plásticas (SBCP), cresceram 141% nos últimos 10 anos.

Desse modo, percebe-se que o limite entre saúde e estética é um imbróglio que necessita de mitigação. Assim, o governo, para fazer valer o artigo 6º da Carta Magna, deve realizar investimento no setor da saúde e da segurança dos pacientes, por intermédio de verbas recuperadas de operação contra a corrupção, como a “Postal Off”. Ademais, a mídia, com seu alto poder persuasivo, deve informar a população, por meio de campanhas a serem divulgadas em diversos espaços, como rádio, televisão e redes sociais, com o objetivo de retirar a população da “cegueira moral” na qual ela se encontra. Assim, será possível remover as “pedras” drummondianas e assegurar o progresso da nação verde-amarela.