Limites entre estética e saúde

Enviada em 10/01/2021

“É que narciso acha feio o que não é espelho”. Esse trecho da música do cantor e compositor Caetano Veloso pode ser aplicado a situação contemporânea da linha tênue que separa estética e saúde, já que a busca por um ideal de beleza é reforçado por um padrão único. Tal contexto tem raízes claras em uma sociedade capitalista que busca desenfreadamente vendas e lucro. Assim, entre os fatores que concretizam esse quadro estão o advento das redes sociais e a manutenção dos espaços de poder.

Desse modo, é importante reconhecer que as mídias sociais aliado ao sistema capitalista voltado a lucratividade contribuem para a falta de limite entre procedimentos para ser saudável e ser apenas por estética. Isso ocorre porque a busca pelo lucro se efetiva no padrão de beleza imposto massivamente nas redes, causando mais compras de produtos estéticos e cirurgias plásticas, e ainda camuflando a estética com uma roupagem de autocuidado saudável. Esse cenário se exemplifica na crescente busca por cirurgias faciais por causa dos filtros nas fotos que mudam medidas do rosto, uma vez que, antes esses filtros eram tratados como uma melhora da fotografia, agora são causadores de angústia e insatisfação corporal.

Além disso, é fundamental perceber que a estética e a saúde são determinantes para a manutenção dos espaços de poder em uma estrutura capitalista. Essa situação acontece porque a condição econômica diferencia quem faz ou não os recursos estéticos e alcança o padrão de beleza, diferenciando as camadas de poder social, o que é muitas vezes associado não à estética, mas à satisfação consigo mesmo. Esse pensamento assemelha-se ao que defende o filósofo francês Michel Foucalt, em Microfísica do Poder, ao demonstrar que recursos visuais são importantes para distinguir as posições dos indivíduos na sociedade, o que mostra claramente que a busca pela padronização gera a turbulência do limite entre estética e saúde.

Dessa forma, é importante reconhecer que o problema da estética erroneamente associada à saúde que vem da busca pelo consumo e geração de lucro da sociedade capitalista, deve ser combatido. Para isso, o Governo Federal deve criar um Programa Nacional de Incentivo à Saúde, por meio de um projeto de lei a ser votado no Congresso, com a finalidade de distinguir o que é estética e saúde e promover a aceitação das diferentes belezas através de aulas e palestras com profissionais da área da saúde física e mental. Assim, a sociedade olharia para seus integrantes não com um padrão do belo, como Narciso, mas com as diferentes belezas que a diversidade oferece, trazendo saúde corporal e mental à população.