Limites entre estética e saúde
Enviada em 11/01/2021
Segundo o filósodo iluminista Jean Jacques Rousseau, o progresso de uma sociedade está intrinsecamente relacionado à autonomia social dos indivíduos que a compõem. Nesse sentido, o chamado “culto ao corpo perfeito” da sociedade hodierna caminha em oposição à máxima de Rousseau, posto que padroniza o indivíduo, que acaba por abrir mão da própria individualidade em detrimento do padrão de beleza ora em vigor. O problemas desse fenômeno comportamental reside não só na saúde, que muitas vezes é bastante prejudicada no caminho, mas também nas consequências psicológicas de tantas cobranças, principalmente para quem não atinge os padrões estabelecidos.
A admiração aos traços finos e corpos atléticos remonta à Grécia Antiga, que através da arte, começara a ditar o que viria a ser entendido como “belo”. Ocorre que nas últimas décadas começou a surgir uma cobrança muito maior, em grande parte impulsionada pelas redes sociais, onde as pessoas buscam cada vez mais elevar a auto-estima através “selfies” e “likes”. O fenômeno tem ocasionado, nos últimos cinco anos, em um aumento de mais de 25% na procura de intervenções cirúrgicas como rinoplastia e cirurgia bariátrica, segundo reportagem do Portal G1. O fato é preocupante, visto que são procedimentos arriscados e não devem ser banalizados como vem acontecendo.
É importante mencionar que os padrões estéticos não servem apenas ao mundo das redes sociais, mas tem sido muito cobrados também no mundo do trabalho. Pessoas tidas como “gordas” ou “feias” são muito menos quistas pelo mercado de trabalho do que pessoas bonitas. O fato está implícito, por exemplo, no requisito de “boa aparência”, solicitado por muitas empresas ao anunciarem contratações. O resultado é um sentimento de frustração muito grande, por parte de muitas pessoas que, por diversos motivos, não têm acesso aos meios de atingir o corpo desejado, ou simplesmente querem o direito de não precisarem se submeter a ditames estéticos cada vez mais inalcançáveis.
Portanto, o problema da busca pelo corpo perfeito possui muitas vertentes, sendo importante conhecer o limite entre a estética e a saúde, tanto física quanto mental. Da mesma forma, toda a sociedade precisa se atentar aos malefícios desta cultura, sobretudo buscando o equilíbrio. Para tanto, o Poder Público, através do Ministério da Saúde, precisa buscar conscientizar as pessoas sobre a necessidade de equilibrar estética e saúde. Certamente, um meio eficiente de se atingir este objetivo seria a veiculação de campanhas de forma clara e objetiva nas redes sociais e televisão. Igualmente bem-vinda seria a atuação da Secretaria de Trabalho em campanhas que desestimulem o uso de padrões puramente estéticos em contratações. Desta forma, seria feito um investimento importante não só na saúde dos cidadãos, mas também um estímulo à diversidade na sociedade.