Limites entre estética e saúde
Enviada em 11/01/2021
Ainda no século XIX, o escritor realista Machado de Assis, em sua obra “Memória póstumas de Brás Cubas”, realiza um crítica social sobre a idealização da mulher. No conto, o personagem machadeano reduz a mulher de seu interesse ao se questionar devido a um problema físico dela: “Por que coxa, se bonita? Por que bonita se coxa?”. Ao trazer o questionamento para os dias atuais, é fácil notar que a questão da idealização da pessoa perfeita, principalmente relacionada à beleza, é ainda mais presente na sociedade. A partir desse contexto, é fundamental entender os aspectos culturais dessa idealização, bem como as consequências relacionadas à saúde.
O primeiro aspecto a se considerar sobre a relação entre estética e a saúde é o modo de como elas se associaram nos últimos séculos. Nota-se que, devido o crescimento da mentalidade mercantilista (quando o desejo de lucro é mais importante que o bem estar individual), o padrão de beleza passou a ser produto de mercado e vendido através da objetificação de corpos aparentemente saudáveis. Tal venda, pode ser notada em anúncios de redes sociais quando são usadas fotos comparativas - de antes e depois – onde o resultado final do procedimento deve ser sempre mais próximo do padrão, mesmo que para isso tenha que haver alguma edição de imagem. Essas medidas propagandistas acabaram por banalizar a procura de procedimentos estéticos como cirurgias plásticas e também o consumo de drogas que ajudam a emagrecer.
Percebe-se, ainda, que muitas vezes a saúde para atingir o “corpo perfeito” é comprometida. O uso indiscriminado de hormônios e drogas que aceleram o metabolismo, por exemplo, podem acarretar em danos fisiológicos permanentes como alteração de produção natural de hormônios e no caso dos produtos que aceleram o metabolismo pode trazer problemas cardiorrespiratórios graves levando até mesmo a morte. Em 2015, por exemplo, a modelo e apresentadora Andressa Urach ficou em coma devido a uma infecção generalizada no corpo e teve que realizar 22 cirurgias para a retirada hidrogel - produto para dar volume muscular - das pernas.
Portanto, torna-se evidente que é necessário combater a cultura de comercialização de corpos saudáveis. Para isso, é fundamental que, o Ministério da Educação, juntamente com o Ministério da Saúde, promova investimentos em ações publicitárias em mídias sociais, rádios e televisão, apresentando pessoas que já foram prejudicadas na busca por esse copo perfeito com a finalidade de expor, com clareza, os perigos da utilização de substâncias exógenas e sobre os procedimentos cirúrgicos mais comuns. Além disso, tal campanha deve apresentar influenciadores dispostos a mostrar que a “perfeição” nas fotos é diferente da vida real.