Limites entre estética e saúde
Enviada em 11/01/2021
Na produção cinematográfica infantil “Branca de Neve”, a personagem antagonista pratica atos deploráveis e irresponsáveis, a fim de ser considerada portadora de uma beleza singular e extraordinária. Embora narrada sob um viés fictício, a obra pode ser relacionada à real conjuntura, posto que grande parcela da sociedade, inclusive a brasileira, tem se submetido a mudanças corporais descomedidas, mediante à realização de procedimentos estéticos arriscados, com o fito de obter aprovação social. Diante desse contexto, é notório que, a exemplo do Brasil, a veiculação de padrões de beleza pelas mídias sociais, somada à ausência de conscientização da população obstaculizam, substancialmente, a aceitação de milhares de pessoas com o próprio corpo.
Nesse sentido, cumpre ressaltar que a busca frenética por mudanças corporais resulta da propagação de padrões de beleza idealizados pela mídia e admitidos pela cultura ocidental contemporânea. De acordo com o’ filósofo norte-americano Noam Chomsky, na obra “Consenso fabricado”, a grande mídia, por meio das diversas redes de comunicação, promove a veiculação de ideias convencionadas que propiciam a mobilização popular e o controle da opinião pública. Nessa lógica, a criação de modelos sociais, como o de feminilidade associada o à forma física, tornou-se uma concreta realidade no Brasil, que não apenas provoca desconforto e insatisfação nos indivíduos que se encontram distantes de tais paradigmas, mas também os induz a se submeterem ao consumo de produtos e procedimentos estéticos que garantem a conquista da aprovação social.
Por conseguinte, como consequência desse cenário, marcado pela padronização da beleza, a vulgarização e a banalização de cirurgias plásticas se consolidaram na sociedade no Estado brasileira o. A respeito disso, é fato que, segundo uma pesquisa realizada pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica e Estética, o Brasil assumiu a posição de maior consumidor de procedimentos estéticos no mundo. Esse panorama evidencia a falta de eluci- dação da população acerca dos riscos proporcionados por tais técnicas cirúrgicas e revelam a existência da “menoridade intelectual”- falta de autonomia sob o próprio intelecto- defendida pelo filósofo Immanuel Kant, na obra " A crítica da razão Pura". Segundo a formulação do pensador, o esclarecimento configura-se como o principal recurso para se desvencilhar de determinada condição. Dessa forma, a cessação com idealizações que preconizam a substancialidade de modificações corporais para a obtenção de aprovação social, apresenta-se como medida imprescindível para que a população priorize a aceitação do corpo, em detrimento da procura frenética pela conquista da beleza ideal.
Diante do exposto, cabe ao Ministério da Educação- ramo do Estado responsável pela formação civil-, em sinergia com a SECOM ( Secretaria Especial de Comunicação Social), estimular o senso crítico e conscientizar a população, por meio da elaboração e da aplicação de campanhas governamentais de cunho educativo, que visem a ruptura da associação entre aprovação social e beleza padrão, a fim de esclarecer, à toda sociedade, sobre os riscos relacionados a mudanças corporais demasiadas e fomentar a aceitação pessoal. As- sim sendo, essa problemática será minimizada no Brasil, e o roteiro da produção cinematográfica infantil deixará de ser vinculado à realidade que integra o cenário brasileiro.