Limites entre estética e saúde

Enviada em 30/01/2021

“Mens sana in corpore sano”. Nessa citação, o poeta romano Juvenal defende que mente e corpo são interdependentes, ou seja, uma boa saúde física conduz o indivíduo a um bom estado psicológico e vice-versa. No entanto, na sociedade contemporânea, essa relação nem sempre é verdadeira, pois muitas pessoas colocam em risco o bem-estar mental e corporal em virtude apenas de desejos estéticos. Nesse contexto, a mídia e os padrões sociais  corroboram danos à saúde de muitos indivíduos, o que ajuda a evidenciar os limites e diferenças entre corpo são e beleza.

É lúcido ressaltar, de início, que a influência dos padrões sociais e dos agentes midiáticos, em razão do extremo culto à beleza, contribui para a detereorização da saúde física e psicológica das pessoas. Sob essa ótica, em uma de suas músicas, a cantora estadunidense Beyoncé afirma que “A perfeição é a doença da nação”. Isso porque a exigência de “corpos perfeitos” e do enquadramento aos padrões de beleza leva os indivíduos à prática de radicalismos, como submissão a dietas extremamente restritivas e a exercícios físicos exaustivos, o que provoca diversos danos ao bem-estar. Além disso, a mídia — que, segundo o filósofo brasileiro Mário Cortella, atua como educadora — reforça o ideal de “silhuetas sem defeitos”, ao propagar apenas a imagem de pessoas magras ou musculosas, por exemplo, em novelas e programas televisivos, contribuindo para a padronização e intensificação do culto à beleza.

Em consequência disso, observa-se a piora da qualidade de vida e a morte de grande parte da população. Nesse sentido, de acordo com o sociólogo canadense Erving Gofman, por influência de fatores coercitivos, o indivíduo perde a sua capacidade de pensamento e junta-se a uma massa alienada, o que caracteriza a “Mortificação do eu”. Tal argumento está, intrínsecamente, relacionado ao aumento dos casos de transtornos alimentares, como bulimia e anorexia, já que muitas pessoas desenvolvem essas síndromes enquanto objetivam atingir o “corpo perfeito” socialmente padronizado e, por isso, perdem a racionalidade ao maltratarem, extremamente, seus corpos. A realização de cirurgias plásticas desnecessárias também é reflexo dessa “mortificação”, pois muitos indivíduos se submetem a procedimentos com profissionais desqualificados e em condições insalubres e acabam não resistindo, como as vítimas do “Doutor bumbum”, que morreram em decorrência de complicações durante a aplicação de silicone, no Rio de Janeiro.

Em síntese, fica evidente que a coerção da sociedade e da mídia está diretamente relacionada à dissociação entre culto à beleza e corpo são. Portanto, é importante discutir amplamente os limites e diferenças entre cada uma dessas situações, além de desconstruir o padrão de “corpo perfeito”. Com isso, será possível tornar sempre verdadeira a afirmação de Juvenal e lutar contra “a doença da nação”.