Limites entre estética e saúde

Enviada em 18/04/2021

No livro “1984”, de George Orwell, relata-se um momento em que Winston, o personagem principal, olha ao seu redor e nota que nenhuma pessoa que vê corresponde ao padrão de beleza imposto pelo Partido, a organização no poder. Fora das fronteiras literárias, a indústria da beleza impõe, através da mídia, um ideal não correspondente ao natural da maioria da população, gerando constante insatisfação e busca por procedimentos estéticos caros e invasivos. Nesse contexto, a saúde é colocada em risco, e nessa problemática notam-se duas ramificações: o aspecto físico e o mental.

Diante de um padrão de beleza inalcançável, surge uma necessidade de transformação a fim de aprovação. Assim, corpos são tratados como mercadorias, e a população, sobretudo jovens e mulheres, busca por procedimentos milagrosos, dietas da moda e cirurgias invasivas, sem refletir sobre os efeitos a longo prazo. O Brasil é o líder mundial em cirurgias plásticas, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética. Schopenhauer afirmava que a insatisfação humana é constante, e é perceptível que essa é uma característica bem explorada pelo mercado da beleza.

Em outro âmbito, a indústria da beleza é capaz de prejudicar também a saúde mental. A imposição das normas impossíveis traz desagrado, culpa, questionamentos e sentimentos controversos. Com estes, vêm os transtornos alimentares, as doenças mentais, abuso de álcool e automutilação. A Organização Mundial da Saúde aponta que o Brasil é o país com maior número de pessoas ansiosas no mundo, e entre as causas está a insatisfação corporal. Infelizmente, assuntos relacionados à saúde mental são ainda estigmatizados e postos em segundo plano.

Infere-se, portanto, que a indústria da beleza explora os corpos e rostos como mercadorias e ignora a linha tênue entre estética e saúde. Diante dessa realidade, faz-se necessário que o poder público, por meio do patrimônio acumulado, invista em campanhas de conscientização sobre procedimentos estéticos, a fim de contribuir para que as pessoas façam escolhas conscientes dos riscos. Outrossim, as famílias devem passar, entre gerações, valores de maturidade e moderação quanto à aparência estética, além de limitar as escolhas de adolescentes que desejam realizar procedimentos, com intenção de gerar reflexão sobre as escolhas e adultos que naturalmente enxergam as pessoas ao seu redor como reais. É preciso tornar a sociedade diferente do Partido.