Limites entre estética e saúde
Enviada em 07/07/2021
As estátuas gregas, produzidas durante o classicismo, demonstram que a padronização de corpos, baseado no que é classificado como visualmente belo, é uma prática antiga. Na contemporaneidade, as estruturas malhadas e alteradas por cirurgias, como a harmonização facial, compõem a estética dominante. Essa idealização é incentivada, principalmente, por veículos de comunicação ao darem visibilidade majoritária para quem se adequar a tais padrões, um ato danoso, uma vez que muitos cidadãos, almejando uma aparência similar, negligenciam sua saúde. Portanto, cabe à sociedade promover uma intervenção capaz de sanar tal mazela.
Em um primeiro momento, é imperativo abordar os efeitos nocivos da homogeneidade de fisionomias na indústria midiática e cultural. Nesse sentido, é lícito referenciar o “Mito da Caverna”, do filósofo Platão, no qual homens acorrentados em uma caverna, viam somente sombras na parede, acreditando que aquilo era a realidade das coisas. Em situação análoga à metáfora abordada, os brasileiros observam os corpos televisionados como os reflexos na parede da caverna e vivem na escuridão, isto é, em uma constante busca para se assemelhar ao que é observado. Desse modo, nota-se que ocultar do grande público as múltiplas formas de beleza que integram o corpo social distorce a percepção que o mesmo tem de si.
Sob esse viés, o Brasil é o segundo país no ranking mundial de cirurgias plásticas, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Paralelamente a isso, em um levantamento do Data Popular foi relatado que 87% das pessoas presentes em propagandas são magras, embora o Ministério da Saúde afirme que metade da população adulta está acima do peso. Tais dados tornam tangível o postulado por Theodor Adorno: “as estratégias midiáticas manipulam os comportamentos individuais”. Sendo assim, a opressão social da estética é um fator de vulnerabilidade, visto que decorre dessa pressão o ato de priorizar a aparência em detrimento do bem-estar e os problemas de saúde — como a anorexia, a bulimia e as complicações oriundas de intervenções cirúrgicas — são banalizados.
Diante do exposto, conclui-se que o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária — por intermédio de uma campanha educativa em congressos nacionais — deve instruir os profissionais a destacarem em seus trabalhos a pluralidade fisionômica dos brasileiros. Concomitante a essa ação, os cidadãos, por meio de uma mobilização nas redes sociais em prol de mais representatividade, devem pressionar os produtores de filmes e programas de televisão, para que o reconhecimento e a celebração dos diferentes conjuntos de beleza inibam a coação dos padrões da indústria cultural e de comunicação. Com tais medidas, a mudança esperada será concebida com êxito.