Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual
Enviada em 15/09/2021
Parafraseando a primeira lei newtoniana, um corpo não terá seu movimento alterado a menos que forças externas suficientes ajam sobre ele, vencendo sua inércia. Esse é, infelizmente, o hodierno cenário dos linchamentos virtuais: uma inércia que perdura em detrimento do individualismo humano, além da impunidade existente no meio cibernético. Sendo assim, convém analisar os principais pilares dessa chaga social.
Vale ressaltar, a princípio, que Zygmunt Bauman ressaltou, em sua obra “Modernidade Líquida”, que o individualismo é uma das principais características do pós-modernidade e que os indivíduos tendem a não tolerar as diferenças. De maneira análoga, as redes sociais, com sua instantaneidade e praticidade, possibilitaram a conexão de indivíduos do mundo inteiro, o que muita vezes, lamentavelmente, é utilizado para deturpar a imagem de outrem, simplesmente por divergência de opiniões e/ou prenoções enraizadas na sociedade que promove um meio estático, acarretando em um distanciamento cada vez maior entre pessoas e grupos sociais com dogmas distintos, ao invés da pluralidade de experiências e informações que poderiam ser partilhadas.
Sob outro prisma, faz mister salientar que Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, alegou em suas “Memórias Póstumas” que não teve filhos e não transmitiu para criatura sequer o legado de nossa miséria. Possivelmente, hoje, ele perceberia quão certeira foi sua decisão: o atual panorama da ausência de criminalização na esfera virtual é uma das faces mais lamentáveis do âmbito nacional. Ademais, essa escassez privilegia a disseminação cada vez mais acentuada dos ataques e o tão dito “terra de ninguém” se torna progressivamente mais real, o que provoca nos mártires, muitas vezes, o surgimento de doenças relacionadas a tal retaliação, como a ansiedade e depressão, ocasionando na formação de um dilema social com dimensões cada vez maiores.
Destarte, forças externas devem tornar efetivas vencendo a inércia proposta por Newton. Dessa forma, o Ministério da Saúde deve promover debates que dialogam sobre as consequências do linchamento virtual. Além disso, é necessário que o Poder Legislativo criminalize os infratores, com prisões e pagamento de penas, por meio da criação de leis rígidas direcionadas a tais práticas exdrúxulas, para que a conectividade proporcionada pela internet não se torne ainda mais tóxica, a fim de romper comportamentos maléficos. Somente assim, alcançar-se-á um meio interativo menos individualista e mais respeitoso, pois como referido por Karl Marx: “as inquietudes são a locomotiva da nação”.