Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual
Enviada em 30/09/2020
Somente no Brasil, que ainda engatinha no que se refere tecnologia se comparado a países mais desenvolvidos, em 2019 atestou-se que 3 em cada 4 brasileiros possuem acesso a internet, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Com tal alcance e o advento das redes, as opiniões não se limitam mais a uma simples “bolha” social, sendo capaz de chegarem a milhões de pessoas e com isso estar suscetível a interpretações e julgamentos, e por óbvio, afetar a vida real.
Uma frase mal colocada, uma dupla interpretação, um flagra ou até mesmo uma manipulação tendenciosa de declarações podem ser estopins para que o “tribunal da internet” inicie seu julgamento e rotulem pessoas e com isso às prejudiquem no mundo real. Segundo o filósofo Leandro Karnall, as redes sociais potencializam o poder do “eu”, que faz com que pessoas apontem coisas que não concordam, independente de ter fundamento ou não, dando voz ao anônimo que usa tal recurso para externar e encontram opiniões em comum, logo, motivam usuários a linchar virtualmente seus supostos alvos pois mesmo que infimamente sua voz poderá ser ouvida.
O fato de a informação poder se transmitida rapidamente e se tornar viral torna o linchamento virtual possível, porém, há duas óticas que precisam ser consideradas. Se por um lado potencializar coisas que não deveriam ter uma repercussão tão grande, como no caso do humorista Julio Cociello que fez uma postagem em tom de humor comparando a velocidade do futebolista francês Mbappe a dos delinquentes que fazem roubos nas praias brasileiras, que nitidamente tratou-se de um caso de frase infeliz, mas que não possui o “ódio” ao qual o humorista vem sendo rotulado, por outro é útil quando o linchamento trás a tona casos abuso de poder, ofensas proferidas injustamente, racismo, entre outros temas que normalmente não chegariam a público e hoje servem de exemplo e certamente desestimulam que tais atos sejam feitos, como no caso do desembargador brasileiro que destratou e ameaçou um guarda municipal que o repreendeu por não estar usando máscara de proteção, mas que devido a repercussão e foi afastado do cargo.
Com base no que fora exposto, é mister que a rede seja usada de maneira mais racional, tanto por quem posta, quanto por quem aprecia, pois o uso irracional pode prejudicar pessoas de maneira irreversível e tornar a vida real impraticável, no entanto, cabe principalmente aos grupos que administram tais redes aprimorarem suas tecnologias de inteligência artificial para prevenir os usuários ativos (àqueles que postam) quanto ao conteúdo, como frases impróprias ou com potencial repercussão negativa, semelhante ao que ocorre na moderação de conteúdo de vídeos do Youtube.