Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual
Enviada em 30/09/2020
O Tribunal da Santa Inquisição, estabelecido na Idade Média, foi um tribunal da Igreja Católica, o qual tinha por atribuição julgar os indivíduos considerados hereges, isto é, aqueles que não se adequavam aos padrões religiosos e morais dessa instituição. De maneira análoga, a sociedade hodierna é afetada pelo linchamento virtual, uma prática que corresponde a um julgamento virtual, nos moldes do estabelecimento de um tribunal, como a Inquisição. Tal prática é motivada pelas crenças e valores de cada ser humano dentro do âmbito virtual que, somadas à facilidade de acesso aos meios de comunicação, podem resultar em graves consequências para aqueles que sofrem do linchamento.
Em primeiro plano, é fulcral destacar a atuação dos valores dos seres humanos para compreender a prática do linchamento. Sendo assim, de acordo com o sociólogo Max Weber, as crenças individuais são as principais catalisadoras de mudanças sociais. Portanto, essa atitude de ‘‘cancelar’’ ou ‘’linchar’’ alguém, tem por principal motivo o conhecimento individual, bem como o conjunto de valores individuais que compõem a sociedade que, por sua vez, une-se em prol da defesa de um pensamento, de modo a estabelecer um verdadeiro tribunal que julga todos aqueles que não possuem os mesmos valores morais e tornar a moralidade uma partícula unitária.
Ademais, é imperativo pontuar como esse comportamento coercitivo e virtual pode contribuir para graves consequências. De tal forma, o caso do norte-americano Emmanuel Cafferty mostra como o linchamento pode ser prejudicial, tendo em vista que ele foi ‘‘cancelado’’ nas mídias sociais, após ser fotografado ao fazer um gesto que, na interpretação do fotógrafo, remeteria ao símbolo do nazismo, enquanto que, na verdade, ele só estava com as mãos na janela de seu carro. De tal maneira, após o caso repercutir, os chefes de Emmanuel se viram obrigados a demiti-lo e em entrevistas ao site de notícias BBC News, o norte-americano confessa ter perdido não só seu trabalho, mas também sua vida social e laboral, de modo que ficou desempregado por meses após ter seu nome vinculado ao caso.
Em síntese, infere-se que é de vital importância o controle sobre os linchamentos virtuais , em virtude da gravidade que esse comportamento pode acarretar para a sociedade. Para tal, urge que o Ministério da Educação, em consonância com instituições privadas, financie um projeto de debates e palestras educativas nas escolas, acerca das mazelas sociais que a cultura do linchamento virtual pode acarretar. Tais debates educacionais, podem contribuir para a formação social dos indivíduos, de modo a impedir a intensificação das práticas coercitivas virtuais que engendram casos como o de Cafferty. Só assim, ter-se-á uma sociedade distante das práticas de condenação moral como se havia no Tribunal da Santa Inquisição.