Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual
Enviada em 06/10/2020
O historiador René Girard elucidou que a violência no homem não é instintiva, mas intersubjetiva e social, a qual pode ser, portanto, mantida pela sociedade. Nesse sentido, é importante analisar os linchamentos virtuais- comportamento que ratifica o conceito de Girard- sob o prima das motivações dos atos e a gravidade dessas ações na contemporaneidade. Desse modo, verifica-se como ferramentas que fomentam tal cenário não só um sistema educacional deficitário, mas também a falta de efetivação das garantias constitucionais.
A princípio, o professor Paulo Freire dissertou sobre a pedagogia libertadora, uma alusão à educação crítica a serviço da transformação cultural. No entanto, observa-se uma rede de ensino que não estimula a tomada de consciência social do indivíduo, por não enxergar, sobretudo, o outro como parte integrante do todo e, consequentemente, tal postura torna-se, nesse contexto, uma força que motiva os linchamentos virtuais. Dessa maneira, visualiza-se um sistema educacional deficitário, o qual não dialoga com as ideias freireanas e, assim, não consegue formar cidadãos mais pacíficos na internet.
Outrossim, a Constituição estabelece que é dever do Estado garantir um ambiente equilibrado a todos. Entretanto, percebe-se outra realidade: a falta de políticas públicas, com o fito de dirimir os linchamentos virtuais, seja pela falta de uma fiscalização eficiente que venha coibir atos agressivos, seja pela impunidade dos agressores. Nessa perspectiva, os fatos expostos ecoam o ‘‘Enigma da Modernidade’’, do filósofo Henrique de Lima, o qual explicita que a sociedade apesar de ser avançada em suas razões teóricas é, por sua vez, primitiva em suas razões éticas. À vista disso, a dissonância entre a narrativa factual e a Carta Magna precisa ser solucionada.
Logo, pode-se inferir que a gravidade dos linchamentos virtuais é um assunto relevante e cabe soluções. Para tanto, é fundamental que o Poder Executivo realize uma reforma educacional- por meio de debates com o Ministério da Educação-, a fim de formar cidadãos mais pacíficos na web. Posto isto, é imperioso que a ação interventiva foque, principalmente, nas ideias de Freire. Ademais, é imprescindível que as ONGs (Organizações não Governamentais), aliadas à mídia, desenvolvam campanhas publicitárias- mediante depoimentos de cientistas sociais- que expliquem a necessidade de o Estado criar políticas públicas, com o intuito de efetivar as garantias constitucionais. Dessa forma, obter-se-á um corpo social distante do conceituado por René Girad.