Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual

Enviada em 09/10/2020

O Cangaço, movimento de banditismo social acometido no nordeste do Brasil no início do século XX, foi reflexo da negligência política na região, o que favoreceu a criação de milícias armadas violentas e  de justiceiros sociais que reivindicavam pra si as funções penais e jurídicas do governo. No que concerne à sociedade contemporânea, analogamente essa situação se faz presente nos meios virtuais: cidadãos indignados tomam pra si a obrigação de fazer justiça com as próprias mãos porque as autoridades não agem. Nesse sentido, diante de uma realidade instável e temerária, motivada pela desconfiança na jurisdição do Estado e corroborada pela baixa atuação governamental, analisar essa problemática é medida que se faz imediata.

É importante ressaltar, em primeiro plano, de que forma o descrédito do governo serve para perpetuar esse fenômeno de linchamento virtual. Isso ocorre, em parte, pela sensação que os brasileiros têm de que os criminosos nunca serão devidamente julgados pelos seus atos, dessa forma, agem de tal forma a executar a justiça por suas próprias forças, mesmo sem o conhecimento e os meios necessários para  que seja feito de forma justa de fato. Antagonicamente aos ideias de Montesquieu, que defendeu a tripartição dos poderes políticos como forma mais democrática e eficiente de governar, no Brasil, entretanto, observa-se um enorme descontentamento popular sob o poder judiciário.

Cabe mencionar, em segundo plano, como o próprio governo brasileiro indiretamente incita essa revolta popular. De acordo com o Banco Mundial, o Brasil possui a justiça 30ª mais lenta entre 133 países - de fato, o congestionamento do setor é fator decisivo para que os justiceiros sociais ajam e tenham o apoio da população -, o problema de fato ocorre quando pessoas inocentes podem ser caluniadas e sofram as consequências de um crime que não cometeram, devido à inexistência do processo legal garantido pela Constituição Brasileira de 1988. Por conseguinte, com a internet servindo como meio de dissuasão, pessoas inocentes podem ter suas vidas arruinadas por causa da velocidade com que uma notícia falsa se espalha nas redes sociais.

Portanto, é mister que o governo aja de forma a solucionar o problema. Dessa maneira, é imperiosa uma ação do Ministério da Justiça, que deve, por meio de votação na câmara, aumentar o orçamento para o setor judiciário com o intuito de acelerar o andamento de processos estagnados há anos. Além disso, o MEC deve propiciar a abertura de novos cursos de direito e concursos para magistério para a formação de novos juízes e promotores capacitados para solucionar novos processos no Brasil, de forma a evitar que o problema se perpetue nas gerações seguintes. Dessa forma, evitar-se-á que o banditismo social violento do Cangaço retorne por meio das mídias sociais e da internet.