Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual

Enviada em 30/10/2020

Na Antiguidade Clássica, a punição extrema e a humilhação pública buscavam “restabelecer” a ordem social e destacar o considerado moralmente certo, além de impor o medo para evitar a recorrência daquela atitude imoral. Embora lamentável, tal cenário continua presente na contemporaneidade, haja vista as motivações e a gravidade dos linchamentos virtuais. Assim, torna-se necessário discorrer acerca da intolerância vigente e dos danos na vida da pessoa linchada para desconstruir essa realidade tupiniquim.

Em primeira análise, é imperativo salientar a não aceitação e o consequente desrespeito à diferentes opiniões e comportamentos. Sob esse viés, segundo a pesquisadora da Unicamp Karen Tank Macedo, a intenção dos chamados “haters” seria preservar valores socialmente construídos, através da “destruição” daquele que pensa diferente, considerado ameaça aos bons costumes. Dessa forma, os justiceiros autointitulados praticam a disseminação de mensagens hostis e a humilhação de um alvo como uma forma de ensinar e garantir a execução do considerado correto, para manter a estrutura social.

Como efeito do linchamento virtual, principalmente para quem é linchado, destaca-se os danos social, psíquico e emocinal. Nesse contexto, em 2013, a norte-americana Justine Sacco, antes de sua viagem para a África do Sul, publicou em seu Twitter: “Indo para a África. Espero não pegar aids. Brincadeira! Sou branca.” Onze horas depois, ao desembarcar, descobriu que havia recebido mais de 100 mil mensagens de repúdio e ameaças de morte, além de ter perdido seu emprego. Desse modo, nota-se que os linchadores, geralmente protegidos pelo anonimato, não tem empatia para com o alvo, uma vez que não medem as consequências de suas mensagens na vida desse indivíduo e não permitem a remissão e a mudança de atitude, o que pode acarretar - em casos extremos - na morte do linchado.

É urgente, portanto, que as escolas - principais agentes na formação de cidadãos conscientes - intensifiquem, em parceria com as famílias, a discussão acerca do comportamento virtual, por meio de palestras, aulas e projetos extracurriculares que mostrem a importância da empatia, tanto no real, como no virtual, a fim de desenvolver, desde a infância, indivíduos solidários e conscientes. Ademais, deverão, em parceria com as mídias comunicativas, alertar a respeito dos efeitos do linchamento virtual e do uso da necessidade do uso racional e responsável redes sociais, por intermédio de propagandas apelativas e exemplares, com o intuito de evitar os ataques extremos e linchadores e minimizar as humilhações públicas.