Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual

Enviada em 30/10/2020

O documentário “dilema das redes”, exibido pela plataforma de streaming “Netflix”, relata as mudanças comportamentais da sociedade hodierna em virtude da consolidação das tecnologias informacionais, no século XXI. Por consequência, a manifestação da violência, em suas variadas formas, foi ampliada com a flexibilidade de propagação de discursos de ódio. Dessarte, é mister analisar os impactos, bem como os principais fatores de perpetuação dos linchamentos virtuais: a negligência governamental e descaso da civilidade.

A princípio, é imperativo elucidar que o marco civil da internet estabelece princípios para o uso da internet, tais como a proteção dos direitos dos usuários. Todavia, a construção jurídica faz-se pouco efetiva em metodologias práticas, uma vez que as redes digitais tornaram-se constantes mecanismos de difusão de comportamentos e mensagens hostis. No episódio “Odiados pela Nação”, da série televisiva “Black Mirror”, é representado o ódio semeado pelos internautas do Twitter, ao subirem “hashtags” agressivas a figuras públicas. Desse modo, evidencia-se que tal fenômeno patológico constitui um atentado às instituições democráticas, em função da perda da autonomia discursiva.

Sob outro prisma, é válido averiguar que a intolerância social agrava a problemática. Segundo a filósofa contemporânea Hannah Arendt, a pluralidade é inerente à condição humana, de forma que todos deveriam estar habituados a isso. Contudo, a realidade virtual vai de encontro com a perspectiva filosófica, haja vista o desrespeito dos usuários com posicionamentos ideológicos opostos, o que ocasiona a hegemonia de pensamento e a falta de criticidade. Logo, denota-se a importância do engajamento da população civil em prezar por um espaço digital mais plural e tolerante.

Em síntese, a observação crítica dos fatos mencionados reflete a urgência de providências para mitigar os atos e a gravidade dos linchamentos virtuais na contemporaneidade. Portanto, compete ao Ministério da Educação (MEC), mediante parcerias público-privadas, implementar uma disciplina específica voltada para a instrução digital nas instituições de ensino. Tal ação contará com o apoio de recursos tecnológicos de empresas privadas e profissionais qualificados da área da tecnologia e da saúde. Isso deve ser feito a partir de aulas práticas e teóricas, além de palestras e debates socioeducativos, com a finalidade de despertar a consciência crítica para o bom uso das redes sociais. Assim, tornar-se-á possível recuperar a criticidade e a autonomia do intelecto dos cidadãos, em consonância com os preceitos garantidos pelo Estado Democrático de Direito.