Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual

Enviada em 04/11/2020

“Posso não concordar com tudo que você diz, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las”. A famigerada citação, duvidosa sobre a autoria ser ou não do filósofo Voltaire, traduz uma máxima que deveria ser disseminada no contexto hodierno: o respeito às opiniões de outrem. Todavia, observa-se, na prática, uma repercussão da intolerância nas redes sociais, configurado nos linchamentos virtuais, desafio que abrange diversos aspectos sociais, seja a prática do “justiçamento” em sua essência punitiva, seja a opressão ao livre pensamento político.

Em primeira análise, é válido salientar como a proposta dessa “justiça popular” é nociva ao direito de defesa das vítimas. De maneira semelhante ao enredo do episódio “Urso Branco”, da série britânica “Black Mirror,” a sociedade é chamada para punir a personagem principal por ter participado como expectadora do assassinato de uma criança, assim, o corpo social diariamente simulava o dia de sua sentença e filmava o sofrimento da jovem para divulgar nas mídias sociais. Sob essa perspectiva, a ficção denuncia a realidade, pois as redes de comunicações tendem a ser utilizadas como um tribunal, em que os tidos como “culpados” não tem direito à justificativa, ou de comprovar sua inocência, levando a crer que , de fato, a internet seja “uma terra sem lei”.

Outrossim, esse imbróglio contradiz o que se espera de um Estado Democrático de Direito. Nesse viés, a democracia ateniense em muito difere da hodierna, visto que a Ágora –local para debater os assuntos da pólis- permitia o exercício da cidadania sem o constrangimento dos participantes. Contudo, hoje, o ambiente de discussão política está embasado em julgamentos dos representantes no ambiente virtual, não apenas considerando suas funções como políticos, mas até mesmo os censurando por suas crenças pessoais. Desse modo, o grave ato do linchamento percorre caminhos contrários ao do estabelecimento da prática política mais crítica e coerente.

Destarte, é imperiosa a união das corporações sociais para corrigir os motivos desses atos, bem como amenizar a gravidade de seus efeitos. Portanto, compete ao Ministério da Educação promover, ainda no ensino fundamental, feiras educativas que englobem estudos do “Marco Civil da Internet" e a divulgação para população sobre o uso consciente das mídias sociais, por meio de vídeos realizados por influenciadores digitais, a fim de que os internautas façam uma ressignificação de suas atitudes. Ademais, é inadiável que as redes virtuais criem ferramentas que somente validem a publicação de comentários com a confirmação de comprometimento com o conteúdo veiculado, de maneira a enviar por “email e sms” pequenos informes elucidativos que contemplem o motivo pelo qual a postagem tenha sido removida, objetivando alertar o agressor das consequências de suas hostilidades .