Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual

Enviada em 24/11/2020

Em 2019, uma “Youtuber” conhecida por ser a principal representante do veganismo foi alvo de uma série de xingamentos e discursos de ódio ao ser vista em um vídeo comendo um filé de peixe. De maneira análoga, no Brasil, o linchamento virtual se caracteriza por ser uma reação coletiva e exagerada a uma conduta considerada má de algum usuário, sobre a qual os internautas se sentem no direito de julgar. Não obstante, essa prática é motivada pelo senso comum de fazer justiça com as próprias mãos e pode ter sérias consequências para a vítima. Por isso, torna-se necessário o debate acerca desses fatores.

De acordo com o imperativo categórico de Kant, uma ação é ética quando pode ser um princípio universal de conduta. Nessa lógica, a turba do linchamento nas mídias sociais viola esse princípio, pois a maior parte das pessoas envolvidas se utiliza erroneamente do argumento de liberdade de expressão para proferir discursos violentos, ferindo a dignidade da pessoa humana. Dessa forma, esse modo de fazer justiça não pode ser considerado ético, uma vez que se baseia nas concepções morais de certo ou errado de cada indivíduo, desconsiderando as leis de convívio sob as quais estão todos os cidadãos.

Outrossim, conforme Pierre Bourdieu, aquilo que foi criado para ser um objeto de democracia não pode ser utilizado como instrumento de opressão. Desse modo, ao comportar manifestações hostis, o sentido primordial das redes sociais de ser um espaço democrático é subvertido, pois o que deveria ser uma discussão positiva sobre diferentes opiniões pode se transformar em violência moralista. Consequentemente, os efeitos podem se expandir para a realidade na forma de perseguições, ameaças, depressão, suicídio, perda de emprego, dentre outros. Assim, segundo Habermas, faz-se imprescindível que a linguagem seja utilizada como uma verdadeira forma de ação.

Fica clara, tão logo, a importância da comunicação para que o linchamento virtual possa ser convertido em um discurso ético. Logo, a fim de minimizar a problemática, é necessário que o Ministério da Justiça implemente medidas de segurança nas redes sociais, como Instagram e Facebook, mediante a criação de delegacias virtuais para investigar focos de manifestações violentas. Ademais, ONGs podem contribuir disseminando formas de expressar as opiniões de modo que não firam os Direitos Humanos, por meio da criação de páginas virtuais e palestras. Enfim, a partir dessas ações, debates levantados, por exemplo, pela influenciadora digital vegana, poderão ser uma prática ética e universal.