Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual

Enviada em 04/01/2021

Machado de Assis, por meio de suas obras, criticava a hipocrisia da sociedade ainda no século XX. Anos mais tarde, o cenário permanece o mesmo, mas se encontra amplificado pelas mídias sociais a partir dos “cancelamentos” - ataque à reputação de indivíduos que cometeram deslizes em relação à moral. Logo, um debate acerca dos linchamentos virtuais é imprescindível. Para isso, é preciso explorar o que os motiva e a gravidade desse comportamento na sociedade atual.

A priori, analisa-se que a internet dá aos seus usuários a sensação de anonimato, o que implica em sentirem-se seguros para agir como juízes. Assim, entende-se que os linchamentos online apoiam-se na condição de superficialidade, indicada pelo filósofo Zygmunt Bauman, que a rede fornece, pois permite que o agressor moral, por trás da tela, não apresente suas próprias falhas, colocando-o acima do agredido. Portanto, ao atacar a imagem de um indivíduo que realizou um desvio de conduta, os internautas escondem-se atrás da aparente perfectibilidade de suas ações, ignorando que todos cometem falhas.

Por consequência, as personalidades públicas, cujos atos têm maior repercussão, podem desenvolver ansiedade pela pressão de serem, integralmente, vigiadas. Esse modelo de vigia associa-se à prisão do panóptico, referenciada pelo filósofo Jeremy Bentham, na qual, ainda que as portas das celas estejam abertas e não estejam sendo vigiados da torre central, todos os presos permanecem em cárcere com medo de serem punidos por sair. Ou seja, aqueles que estão sob os holofotes sofrem com medo de perder o que construíram ao serem condenados pelos juízes da internet devido a ações classificadas como imperdoáveis.

Em síntese, os linchamentos virtuais são realizados por pessoas que se sentem moralmente superiores e atacam a imagem de outra sem levar em consideração os danos psicológicos que podem causar. Em vista disso, é fundamental que os indivíduos ponderem as suas criticas ambientes virtuais, afim de reduzir os danos causados a quem cometeu o erro em questão o alertando de maneira branda, por meio da conscientização de que todos, inclusive aqueles que se colocam no papel de juíz, são passíveis de erros. Para isso, é necessário que façam consultas com psicólogos afim de criar um sistema de autorreflexão próprio, além de lerem e se informarem a respeito das visões filosóficas das mídias sociais de Baumam e outros filósofos. Destarte, os “cancelamentos” serão reduzidos à mesma medida que a hipocrisia criticada por Machado.