Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual

Enviada em 24/05/2021

Linchamentos virtuais

Alicia Ann Lynch, uma jovem norte-americana de 22 anos, publicou no Twitter uma fotografia onde aparecia fantasiada para uma festa de Halloween. A fantasia era de uma simplicidade que teria consequências imprevisíveis; aparecia vestida com roupas esportivas, com o rosto e os membros lambuzados de tinta vermelha, como se tivesse sangrando abundantemente, e u ma legenda que rapidamente lhe garantiria um linchamento nas redes sociais: “Vítima da maratona de Boston”. A referência daquele gracejo era a bomba que, em abril de 2013, interrompeu violentamente a famosa corrida, causando três mortos, 282 feridos e a mancha indelével de um atentado terrorista na cidade. A inconsciência e o mau gosto de Lynch e a péssima ideia de publicar essa fotografia dispararam a morbidez de seus escassos seguidores no Twitter e as republicações destes fizeram com que em algumas horas a jovem recebesse milhares de insultos e mensagens de uma dureza que não admiti a nenhuma réplica, como este enviado por uma vítima da trágica maratona: “Você deveria estar envergonhada. Minha mãe perdeu as duas pernas e eu quase morri”.

O linchamento virtual logo ganhou consistência real e a jovem teve que trancar-se em casa, e alguns dias mais tarde o chefe do escritório onde ela trabalhava, constrangido pela pressão das redes sociais, a despediu. Usar tal fantasia não tem nenhuma graça e publicar a fotografia é um gesto depreciável, mas o que teria acontecido com Alicia Ann Lynch se tivesse feito a mesma brincadeira, com a mesma foto, em 1970, antes da Rede? A foto teria sido vista somente por seus amigos e seu chefe dificilmente a teria despedido por essa brincadeira de mau gosto, mas de alcance exclusivamente doméstico. O caso é interessante pois evidencia como as redes sociais aumentam situações que, sem essa difusão massiva, ter iam sido muito menos importantes. (…)

Talvez, para começar a estabelecer um marco civilizado de convivência na Internet, seja necessário aposentar a ideia de que o que acontece no ciberespaço é realidade virtual, e que, apesar de sua natureza intangível, deve ser considerada, tratada e legislada da mesma forma como é feita na dura, e bem tangível, realidade.