Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual

Enviada em 24/05/2021

O filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas defende, dentre várias ideias, que o debate é de máxima importância para uma sociedade, sendo ela “dependente de uma crítica às suas próprias tradições”. No entanto, observa-se atualmente que o debate saúdavel entre lados com opiniões divergentes é cada vez mais raro, especialmente no meio virtual. De fato, a chamada “cultura do cancelamento”, uma forma de linchamento virtual, se torna cada vez mais comum nas redes sociais, enquanto se distancia de seu objetivo inicial, resultando no boicoite de vários índividuos inocentes.

É necessário abordar, em primeiro plano, que o ato de “cancelar” alguém está cada vez mais longe de seu conceito original. Segundo Alison V. Marques, jornalista e mestre em Administração, o movimento #MeToo de 2017 foi crucial para o ínicio da cultura do cancelamento: foram expostos diversos casos de assédio sexual e abuso contra atrizes conhecidas de Hollywood, com o ato de “cancelar” sendo visto na época como uma forma de chamar atenção do público geral para um ato errado, ou inadequado. No entanto, esse conceito foi se alterando com passar do tempo, sendo tido atualmente como uma forma de lesar qualquer pessoa, famosa ou não, por ter se comportado de uma forma diferente do habitual para um determinado grupo de pessoas, grupo esse que varia desde fânclubes até toda a população de um país. Dessa forma, uma forma de denúncia acabou se tornando uma forma de linchamento.

É preciso ressaltar, ainda, o imenso impacto que o processo do cancelamento têm em suas vítimas, tendo resultado em vários casos relacionados à saúde mental. Nesse sentido, deve-se abordar o suicido de Byron Bernstein, conhecido como “Reckful”, um famoso influenciador americano e jogador profissional de esportes eletrônicos que propôs a sua namorada, Becca Tilts, em casamento em uma postagem no Twitter. Mesmo já tendo divulgado publicamente que lidava de depressão há mais de 10 anos, Reckful recebeu inumeros xingamentos pela rede social, tendo sua morte confirmada após isso por um colega de quarto e pela propria Becca, que não soube da situação antes de sua morte. Nesse sentido, percebe-se como uma mensagem inocente, como uma simples proposta de casamento, pode se tornar o motivo de um linchamento virtual, e resultar até na morte do alvo.

Diante do exposto, torna-se evidente que, para resolver a questão do linchamento virtual no Brasil, medidas devem ser tomadas de imediato. Para tal, as Escolas devem conscientizar os alunos, por meio de palestras e debates, a respeito da importância de se ter um debate saudável, que respeite a opinião de ambos os lados, afim de diminuir a ocorrência de cancelamentos por desavenças e outros motivos simples. Aliado a isso, a Mídia deve informar a população, por meio de campanhas televisivas, a respeito do impacto dos boicotes virtuais na saúde mental dos alvos, afim de diminuir sua ocorrência.