Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual

Enviada em 25/07/2021

É preciso considerar, antes de tudo, que o surgimento das novas tecnologias e das ferramentas sociais estabeleceram uma democratização do acesso à informação, de modo que os indivíduos possuem acesso ao conteúdo e a capacidade de dialogar com o locutor em tempo real e imediato. Entretanto, como marcas de uma sociedade exponencialmente polarizada, é comum a divergência de pontos de vista e os conflitos que estes causam. A priori, o romano Tácito afirma que os homens apressam-se mais a retribuir um mal do que um benefício. Sob essa análise, destaca-se a proliferação de discursos de ódio nas redes, motivados pela superioridade ética e o desejo de justiça social em razão de “deslizes” cometidos no cyberespaço.

Em primeiro plano, no que tange a cultura do cancelamento virtual, o filósofo John Locke metaforiza que o ser humano nasce uma “tábula rasa”, isto é, uma folha de papel em branco e que o conteúdo a ser escrito depende das experiências vividas. Nesse contexto, destaca-se a educação ética adquirida ao longo dos anos, principalmente na infância, de modo que esta representa a principal fase da vida para a formação do indivíduo. Sob essa óptica, a construção da personalidade mediante a influência de pais e educadores rege o preceito do que é considerado politicamente correto para estes. Dessa forma, a ideia do indivíduo seria preservar valores socialmente construídos, considerados corretos. E, por conseguinte, “destruir” aquele que age ou pensa diferente, assassinando-o, assim, por meio de ataques digitais.

Paralelamente, a cultura do linchamento virtual perpassa pelo desejo de tomar para si o direito de punir o outro pelo erro cometido. De maneira análoga, o Tribunal da Inquisição instituído na Idade Média é, na contemporaneidade, as redes sociais. Sob essa perspectiva, destaca-se a participante do Big Brother Brasil, Karol Conká, que durante o reality promoveu discursos intolerantes sobre um determinado participante. Desse modo, os telespectadores, regidos por um sentimento de revolta e impunidade da cantora, mobilizaram-se nas redes levantando uma bandeira de ódio à participante, a fim de promover um cancelamento desta do meio social, efetivando-se, assim, por meio da eliminação da candidata com 99,17% dos votos. Assim, evidencia-se, dessa forma, a justiça exércida pelo júri virtual por meio de códigos não institucionais.

Portanto, são essenciais medidas a fim de diminuir tal problemática. Para isso, compete ao Ministério da Educação realizar palestras em instituições educacionais destinadas aos jovens, a fim de promover uma conscientização e responsabilidade no uso das redes. Por fim, cabe as redes sociais a utilização da inteligência artificial por meio de algorítimos para a detecção de discursos de ódio, a fim de punir os indivíduos que levantam essa causa. Logo, torna-se possível modificar o que cunhou o romano Tácito.