Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual

Enviada em 24/08/2021

O escritor austríaco Stefan Zweig, dada a perseguição nazista na Europa, veio para o Brasil e se radicou no Rio de Janeiro. Influenciado pela cordialidade e pelo potencial dos brasileiros, Zweig exaltou o seu novo país por meio do livro, cujo título ainda é, muitas vezes, repetido: “Brasil, país do futuro”. No entanto, as consequências dos linchamentos virtuais na sociedade atual, permitem inferir que sua previsão se limitou às páginas da sua obra. Em razão desse cenário, é preciso compreender que os discursos de ódio estão diretamente associados à personificação de problemas sociais, bem como questionar os fatores a determinar a perpetuação desse processo no organismo social.

Em face desse questionamento inicial, é preciso esclarecer que a prática desse comportamento é só uma atualização digital de algo que já acontece fora desse ambiente, em que há uma reação popular desproporcional. Por conseguinte, consoante ao pensamento de Marilena Chauí, filósofa brasileira, a ética deveria fundamentar-se em torno de ideias e de práticas positivas de liberdade e felicidade. Contudo, ao lançar olhar sobre a realidade, percebe-se que, muitas vezes, pessoas públicas e, até mesmo desconhecidas, se tornam alvo de ataques diante do que a sociedade considera politicamente incorreto. Logo, fica claro que a crítica deve ser sempre em relação a opiniões, mas é preciso despersonalizá-la.

Nesse contexto, outra questão pontual é o fato de que as redes sociais aumentam situações que, sem essa difusão massiva, se tornariam muito menos relevantes. Sob esse viés, cabe observar que, conforme enuncia Zygmunt Bauman, a era moderna levou à liquidez das noções universais e, com isso, passou-se a valorizar o individual e a vida, a partir de uma transitoriedade universal. À luz desse raciocínio, pode-se afirmar que exposições cotidianas acabam dando espaço para julgamentos não pensados, favorecendo casos de linchamentos virtuais. Portanto, de nada adianta analisar esse contexto de discriminação, se a questão do individualismo não estiver em pauta.

Isso posto, conclui-se que, enquanto não houver medidas que despersonalizem este comportamento, a questão que envolve ataques e injúrias virtuais continuará em diversas esferas sociais. Assim, é fundamental que o poder público estabeleça como meta a implementação de leis mais rígidas, estabelecendo um marco civilizado de convivência na internet, visando aposentar a ideia de que o que ocorre no ciberespaço é realidade virtual. Concomitantemente, cabe ao Ministério da Educação,  promover palestras que proponham a empatia entre os alunos, para que estes não perpetuem ou compactuem com ataques de ódio. Com essas iniciativas, espera-se alcançar o “país do futuro” descrito por Stefan Zweig e promover o bem-estar social.