Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual
Enviada em 24/08/2021
O sociólogo francês Émile Durkheim sustenta que a sociedade sempre prevalece sobre os indivíduos, dispondo de certas normas e costumes que assegurem a sua perpetuação, formando uma consciência coletiva. Para o pensador, o conflito existe basicamente pela anomia, a saber, pela insuficiência da normatização das relações sociais. Com base nessa formulação sociológica, pode-se afirmar que, com relação à constância de linchamentos no âmbito virtual, a subsistência dessa disposição se caracteriza como uma anomalia na formação social do Brasil. Nesse sentido, é preciso questionar a influência da política do “cancelamento” a essa conjuntura, assim como analisar seu impacto no organismo social.
Em razão desse questionamento inicial, é preciso esclarecer que, diante de uma sociedade repleta de indiíduos providos de senso crítico, a cultura da repreensão virtual, ao promover um maior cuidado na emissão de pensamentos, se torna válida. Para defender essa ideia, não se pode ignorar a relevância desse hábito sobre pessoas públicas, os nomeados “influenciadores digitais”, na medida em que atribui uma maior cautela em relação ao conteúdo publicado. Nessa lógica, comprovam-se os vestígios do processo de anomia, alertado por Durkheim, uma vez que essa prática, além de uma forma de cobrança de responsabilidade, tem acarretado o linchamento de usuários por atitudes registradas na internet. Dessa forma, fica claro que apesar de necessária, essa tática precisa de uma remodelação em seu uso.
Ainda nessa linha de raciocínio, outro ponto relevante é que, mesmo tendo como objetivo a imposição de limites éticos, a prática dos linchamentos vituais não funciona para a reeducação do usuário, de modo a somente incentivar o ódio no ambiente on-line. Consoante a essa ideia, como o ser humano, conforme elaboração do filósofo Immanuel Kant, é considerado um ser dotado de razão e, por isso, capaz de impor leis a si mesmo, pode-se pensar que o próprio condenaria ações geradoras de tal desfecho e, sobretudo, exaltaria atitudes de modificação. No entanto, ao lançar olhar sobre a realidade, percebe-se a constância de indivíduos sendo publicamente envergonhados, em virtude dessa cultura. Ganha configuração real, assim, a necessidade de alterações para alcançar a eficácia desse movimento.
Diante desse contexto, verifica-se urgência em suspender a cultura dos linchamentos virtuais no Brasil. Assim, é papel do governo estabelecer como meta a preservação dos direitos humanos em âmbito digital, a partir da consolidação das diretrizes do Marco Civil da Internet, com o fito em bloquear os discursos de ódio desmoderados. Ademais, cabe ao Ministério da Educação promover o auxílio necessário para a instrução entre os usuários, por meio da oferta de palestras e materiais de cunho didático, como forma de alcançar uma convivência harmônica no meio digital. Com essas iniciativas, espera-se consolidar a consciência social, proposta por Durkheim, e promover o bem-estar social.