Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual
Enviada em 17/09/2021
O “linchamento virtual” (assim chamado pela mídia), que é fruto de agressões e humilhação pública em redes sociais on-line, mas que não se encerram nelas, estendendo-se em efeitos e consequências para a “vida real”. De acordo com Leonardo Goldberg, doutor em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) , a prática é só uma atualização digital de algo que já acontece fora desse ambiente, em que há uma reação popular desproporcional. “Eu tenho a impressão que a pessoa não tem noção do poder da palavra. A pessoa pode ficar deprimida, os efeitos são os mesmos que se fosse fora da internet. Muitas vezes elas não têm noção de quanto é nocivo’’, explica. Segundo ele, o que motiva esse tipo de atitude é a personificação de algum problema social. “É marcado pelo princípio de que alguém pode ser o bode expiatório daquilo que a sociedade considera politicamente incorreto. Como se ele reencarnasse todo o mal e fosse uma briga entre os justiceiros e o mal”, diz. A atitude pode ser crime, a depender das ofensas que forem publicadas. O que pode acarretar em processos tanto no campo cível, com dano moral, quanto na área criminal, como injúria, calúnia e difamação.
A vítima de um linchamento geralmente “cumpre a função ritual e sacrificial do bode expiatório”, escreve José Martins de Souza, sociólogo e professor da USP, no livro Linchamentos: a justiça popular no Brasil. Em seu levantamento, Martins estima que haja um linchamento físico por dia no País, e que, nos últimos 60 anos, cerca de um milhão de brasileiros tenha participado de pelo menos um ato ou uma tentativa desse tipo.
Apesar das diferenças entre o linchamento físico e o virtual, a efeito de pesquisa, a distinção é menos acentuada: “o linchamento virtual também é real. A pessoa atacada tem família, vida social, não é só um avatar”, explica a pesquisadora da Unicamp Karen Tank Mercuri Macedo, que estudou o tema. “Acreditamos que o linchamento virtual muitas vezes acontece por falta de letramento digital. Se a pessoa não tem uso crítico da tecnologia, não conseguirá avaliar a fonte das informações que recebe e tem mais chances de ser um linchador ou linchado em potencial.”
Mas a penalização para o linchamento virtual e físico pode se tornar mais rigorosa com o projeto de lei 7544/14, do deputado Rubens Pereira Júnior (PCdoB-MA), que foi aprovado em março na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. O projeto prevê aumentar em 1/3 a punição para a “incitação ao crime” via internet ou outro meio de comunicação de massa.“Todos os que compartilham ou comentam no linchamento deveriam responder criminalmente, mas a dificuldade de rastrear acaba focando a punição na primeira pessoa que o publicou”, diz Macedo.