Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual

Enviada em 09/11/2021

A série norteamericana Black Mirror retrata o linchamento virtual generalizado, em um dos seus episódios, que resulta no assassinato da vítima em todos os casos, geralmente celebridades que apresentaram deslize moral em uma afirmação.  Fora da ficção, a cultura do “cancelamento” apresenta—se significativo no meio cívico contemporâneo, motivado pela ascensão do falso moralismo, bem como pela anonimidade do ambiente virtual, o que potencializam os casos de injúrias nas redes de socialização, ocasionando o desenvolvimento de traumas e, como a série, homicídio.

Sob essa ótica, o falso moralismo manifesta-se na sociedade por meio de cidadãos que se autointitulam éticos, moralmente corretos e hábitos a julgarem deslizes comportamentais. Diante disso, a expansão do falso moralismo induz o aumento dos casos de linchamento virtual na sociedade, pois está associado à característica de universalização ideológica e violência verbal a qualquer indivíduo que se distoa do padrão, comumente observado nas redes de exposição. Nesse viés, a filósova alemã Hannah Arendt, vítima da opressão nazista, afirmava que todo tipo de poder se apresenta como uma violência. Logo, observa-se como a ascensão dos juízes de internet, mediante a especificação moral, contribuem para a violência, enfatizada pela pensadora, pois buscam promover justiça com as próprias mãos exercendo “poder” sobre a imagem de uma pessoa, o que provoca traumas psicológicos irreparaveis nas vítimas do cancelamento.

Além disso, Jeremy Bentham, filósofo inglês, defende o panóptico como o sistema perfeito de prisão, baseado em uma torre de vigilância que simula a observação constante dos detentos, pois afirmava que a fiscalização garante a ética. Nessa perspectiva, o meio virtual propicia o anonimato dos usuários, que muitas vezes escondem a identidade verdadeira na rede, possibilitando a fuga constante da vigilância social, semelhante ao panóptico, o que permitie a atitude imoral, evidenciada nos discursos de ódio e na propagação do linchamento virtual, quando em grupo. Dessa forma, analisa-se como os meios de socialização hodiernos possuem fragilidades que potencializam movimentos de exclusão social.

Evidencia-se, portanto, que para amenizar a banalização do cancelamento associado ao discurso de ódio na internet, é importante às Redes Sociais, como Facebook e Instagram, desestimularem a viralização de publicações e comentários que estejam associados às atitudes que tangenciam o princípio ético do corpo social, por meio da criação de um algoritmo que identifique rapidamente palavras comumente usadas em violência verbal, que diminua o alcance do comentário e envie uma mensagem esclarecedora ao autor da publicação, especificando o desvio moral.