Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual

Enviada em 18/11/2021

Em ‘’1984’’, obra literária de George Orwell, é descrita uma realidade distópica, em que a sociedade austera é permeada pelo medo de repressão e ininterruptamente vigiada pela figura central do livro: o Grande Irmão. Fora da literatura, a internet tem sido ferramenta e, simultaneamente, palco de muitos ataques frequentes à figuras públicas que, sob constante vigilância dos internautas, configuram uma existência virtual mediada apenas em uma conduta obrigatoriamente preestabelecida. Assim, é notável que, assemelhando-se diretamente às autoridades orwellianas, os linchamentos virtuais são decorrentes de um sentimento de superioridade e afastamento para com o próximo, resultando em hostilidades desmedidas e sem possibilidade de redenção.

Em primeiro lugar, o individualismo latente no tecido social unido à sensação de liberdade que as redes sociais promovem têm como consequência o surgimento de massas de ‘’juízes’’ do ciberespaço, que atacam e condenam irrevogavelmente falas ou atos que fujam de seus parâmetros. De acordo com o filósofo Zygmunt Bauman, a ascensão do individualismo pela modernidade líquida faz com que o Homem não se enxergue mais inserido na vida em comunidade. Dessa forma, exponenciado pela percepção errônea de liberdade de expressão irrestrita, esse fenômeno motiva julgamentos e discursos de ódio, uma vez que o sentimento de distância e superioridade em relação aos seus contemporâneos é potencializada pelo espaço virtual.

Consequentemente, episódios como o intenso cancelamento da cantora Karol Conká, após sua participação em um ‘’reality show’’, tomam proporções que afetam diretamente a saúde mental do cancelado. Inspirado na obra de Orwell, ‘’Big Brother Brasil’’ (em tradução livre, O Grande Irmão Brasil) é o reality no qual a participante foi exposta 24 horas por dia aos telespectadores, suscetível a ser julgada em todas suas ações. Atingindo o recorde de rejeição do programa e alvo de milhares de falas odiosas no meio virtual, a cantora alegou, em uma entrevista ao podcast de Whindersson Nunes, ainda sofrer com desconfianças e assédios sobre tais eventos, afetando seu quadro psicológico. Nesse sentido, é notável que os ‘’Grande Irmãos’’ modernos dispõem sempre de ataques, mas nunca de uma remissão concreta, conformando uma situação de gravidade na sociedade atual.

Portanto, medidas devem ser tomadas para que o ciberataque seja paulatinamente combatido. Urge que o Ministério da Educação - órgão que coordena o sistema educacional brasileiro - promova rodas de conversa em escolas acerca da vida em sociedade e respeito ao próximo, por meio da contratação de psicólogos especializados para conduzir os encontros. Assim, poderemos formar uma geração menos individualista e gradualmente diminuir os linchamentos virtuais na internet.